Vai ficar tudo bem

Saudade dos filhos e netos pesa na rotina do casal de idosos, que buscou refúgio no sítio para ter atividades e tomar sol

Autores: Ana Tolentino, Bárbara Negrini, Bruna Lima, Letícia Rivoli Menegatti e Rogério Fontes

A medida que os dias de isolamento social de Ângela e Murilo Mondaini foram avançando, a sensação de que os dias eram os mesmos se tornou cada vez mais real. Não tinham mais as saídas para beber uma cervejinha e nem as visitas dos netos. A quarentena do casal começou no dia 15 de março, nos primeiros dias Ângela colocava samba para o casal dançar, abria todas as janelas do apartamento no Méier para arejar o ambiente, mas, depois de um tempo, até isso parou de funcionar.

Ativos antes da pandemia, Ângela e Murilo Mondaini se sentiram ansiosos e com medo em isolamento domiciliar. Foto: Rafael Mondaini

Ângela conta que os dois ficavam sentados durante muito tempo, esperando o dia acabar e sem perspectiva de a situação melhorar. “Você começa a não ver um fim, só vê dizendo que está piorando”, afirma. Na última semana de abril, o casal decidiu mudar o isolamento social para o sítio deles em Miguel Pereira, onde a rotina é mais dinâmica. Após cuidar das flores, dos passarinhos, tomar sol e caminhar no terreno, eles percebem que o dia acabou.

Por serem casados há 53 anos, Ângela consegue perceber quando seu marido não está bem, mesmo que ele não seja de falar muito. Durante os 43 dias trancados em casa, Ângela perdeu a conta de quantos bolos assou e foi assim que notou a ansiedade do marido: “ele estava comendo tudo, descontando tudo no doce”, contou.

A psicóloga Josilene Caixeiro relata que a maioria dos pacientes que ela atende pelo projeto social criado para o período do isolamento mostram sinais severos de ansiedade e compulsão alimentar. O projeto surgiu pela grande demanda de atender pessoas que estão passando por dificuldades emocionais durante o período da quarentena. O atendimento tem um valor social, de 25 reais.

O medo e a ansiedade de Murilo, de acordo com Ângela, são consequências de quem faz parte do grupo de risco “três vezes”: ele tem 76 anos, é cardíaco e diabético. Com o passar dos dias em isolamento, Ângela começou a ficar com medo de que o marido entrasse em depressão. “Ele começou a falar para mim que não estava bem”, conta ela.

Apesar de todo o medo e saudade, Ângela repete ao fim de suas frases: “vai ficar tudo bem”. E, para ela, precisa ficar tudo bem. “A primeira coisa que eu vou fazer é abraçar meus netos e beijar muito”, diz emocionada.

As saídas de Ângela e seu marido para “tomar uma cervejinha” deixaram de acontecer, mas ela afirma que a sua maior saudade é ver seus filhos e netos. “Meu neto Rafael é muito agarrado com a gente, ele nos abraça e nos beija, eu sinto muita falta disso”, conta. Cláudia, que já voltou a trabalhar, compartilha os sentimentos de Ângela. “Quando a quarentena acabar eu quero ver meus netos e filhos, abraçar  e beijar muito todos eles”, diz. Já Zaira continua desejando ter sua rotina de volta, ter a liberdade para fazer seu pilates e sua musculação.

“É muito importante ter o cuidado com os idosos”, explica a psicóloga Luciana Gemal. “Saber o que eles pensam sobre isso e, junto deles, acordar um meio de responsabilidade para passar por esse processo”.

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