Sem idade e com mais tempo

A geração 50+ está se livrando dos rótulos e caricaturas da velhice e descobrindo a liberdade para se reinventar: empreendendo ou descobrindo novas profissões, cuidando mais da saúde, abusando da liberdade e se livrando de antigos rótulos, numa postura ageless.

SÃO PAULO  —  O eixo da velhice na atual sociedade brasileira se deslocou para depois dos 80 anos, especialmente para as mulheres. Diante desse cenário de maior qualidade de vida e saúde, a mulherada tem se reinventado a partir dos 50 anos. Estão empreendendo ou descobrindo novas profissões, cuidando mais da saúde, abusando da liberdade e se livrando de antigos rótulos, numa postura ageless, ou sem idade. Esses foram os principais temas abordados em mesa-redonda sobre a geração 5.0 com a antropóloga Mirian Goldenberg, a jornalista Marcia Neder e o médico Drauzio Varella, com mediação de Astrid Fontenelle. O evento foi realizado no Museu da Imagem e do Som (MIS) de São Paulo.

Na pesquisa que fez para escrever o livro “A revolução das sete mulheres”, a jornalista Marcia Neder, 64 anos, identificou o que mais incomoda as mulheres a partir dos 50 anos: a invisibilidade. “O maior ganho é a liberdade de ser o que quiser. Mas o que temos de visível dessa nova realidade são as caricaturas, numa representação equivocada. Ou é a velhinha ágil, que pula poça d’água no comercial de banco, ou a mulher que se veste como adolescente e se recusa a envelhecer. Nada contra nenhum desses perfis, mas como fica quem não se encaixa? Fica invisível”, explicou Marcia.

A jornalista também aproveitou para refutar os discursos que, segundo ela, tentam trazer um novo valor para as gerações a partir dos 50 anos. “Falamos que os 50 são os novos 40. Não, não são. Os 50 são um novo 50, assim como os 60. Podemos ter 60 anos hoje e não estar no bico do corvo. É uma outra fase da vida, tem outra qualidade, mas continua sendo os 60”, defendeu.

As transformações femininas foram o tema do debate Geração 5.0 realizado no MIS em São Paulo / Foto de divulgação — José Roberto Greb Vazquez

As transformações femininas foram o tema do debate Geração 5.0 realizado no MIS em São Paulo / Foto de divulgação — José Roberto Greb Vazquez

Em suas pesquisas nas últimas décadas com mais de 1.500 mulheres de 30 a 90 anos, a antropóloga Mirian Goldenberg também se deparou com esse incômodo da invisibilidade na faixa dos 50 a 60 anos. Mas lembra que, a partir dos 60 anos, o capital feminino passa a ser a liberdade em relação ao corpo e ao tempo. “Entre os 40 e 60 anos as mulheres reclamam da decadência do corpo, da ausência do homem, da aposentadoria sexual. A partir dos 60, elas não falam mais de corpo e de marido. Reconhecem que, pela primeira vez na vida, podem ser elas mesmas e sabem que o tempo é mais curto para isso”, afirmou Miriam, para quem a total plenitude surge com os 70 anos. “Com 70, tudo fica ótimo.”

Miriam também destacou as diferenças das mulheres para os homens nessa fase pós-50 anos. “Os homens não têm os mesmos capitais acumulados. Para eles a grande perda é a identidade de trabalho, não há essas regras invisíveis da velhice e esse aprisionamento com o corpo que as mulheres vivenciam”, complementou.

Drauzio Varela / Foto de divulgação —  José Roberto Greb Vazquez

Drauzio Varela / Foto de divulgação —  José Roberto Greb Vazquez

O médico Drauzio Varela lembrou que as diferenças biológicas e hormonais entre homens e mulheres são componentes importantes nesse momento da vida. Enquanto os homens têm uma perda hormonal gradual ao longo dos anos, as mulheres vivem essas variações hormonais diariamente e, com a menopausa, passam por um verdadeiro turbilhão. Além disso, o médico destacou a forte mudança no estilo de vida das mulheres nas últimas décadas. “Nos anos 40 e 50, uma mulher menstruava de 40 a 50 vezes na vida. Isso porque a menarca acontecia aos 17 anos, ela tinha dezenas de filhos e os amamentava por bastante tempo; não usava anticoncepcional, não trabalhava. Hoje, elas menstruam com 12 anos, adiam a maternidade, amamentam menos e a menopausa chega depois dos 50. Menstruam de 400 a 500 vezes na vida. É uma diferença brutal”.

Para o médico, os 50 anos são hoje uma fase mais crucial do que a menarca, o início da menstruação ou da vida sexual feminina, porque a mulher vai viver até os 80 ou 90 anos. “É fundamental se preparar para viver esse pós-menopausa por mais 30, 40 anos. E o corpo não pode ficar atrás do intelecto. Envelhecimento não é sinônimo de adoecimento”, afirmou.

A jornalista Marcia Neder concordou com a ideia de que é preciso se preparar: “Cabe a cada um decidir como vai ser essa nova fase e se planejar para isso. Ou, como disse Bibi Ferreira para mim quando perguntei o que teria que fazer para chegar aos 90 como ela: faça como ensina o uísque, keep walking”. A sugestão de Mirian Goldenberg é aproveitar os 50 para fazer uma faxina existencial e se livrar dos rótulos e caricaturas. “Vamos abandonar essas visões de idade. É hora de viver ageless”.

Raquel Almeida

Raquel Almeida

Jornalista, com experiência de 20 anos em redações de jornais e revistas no Rio de Janeiro e São Paulo. Foi repórter e editora em veículos como Jornal do Brasil, O Dia, Veja, Gazeta Mercantil, Globo.com e O Globo, com ênfase em jornalismo digital. Tem experiência na área de comunicação corporativa e em projetos de conteúdo para meios digitais. Graduada pela Escola de Comunicação da UFRJ e pós-graduada em Marketing pelo Coppead/UFRJ, é mestranda em Divulgação Científica e Cultural no LabJor da Unicamp, onde pesquisa novos ambientes de jornalismo digital sob influência da cibercultura, tema que estuda e acompanha desde 2001. Mãe de três filhos, é colaboradora em coletivos de jornalismo digital e coordena o Mães em Rede, site de brasileiras expatriadas pelos quatro cantos do mundo. Nasceu em Madureira e foi criada no Estácio, mas garante que não tem samba no pé. Gosta de gente e de bicho, mato e praia, astrologia e yoga. Cabeça digital, coração, sempre analógico.

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