Revoluções nossas de cada dia

Geração de mulheres brasileiras que hoje tem 50 avançou no mercado de trabalho, na educação e nos arranjos de família e foram parte decisiva na transformação do país nas últimas décadas.

Não fomos para as ruas queimar sutiãs, não fomos as primeiras a experimentar a liberdade sexual proporcionada pelo uso da pílula, não fomos pioneiras na conquista de espaço nas universidades e no mercado de trabalho. Mesmo assim, mulheres brasileiras que hoje têm 50 anos (ou um tanto mais) foram parte decisiva na transformação do país nas últimas décadas.

Filhas do movimento político: parte das mulheres que hoje completam 50 anos nasceram sob a ditadura militar. Na época, artistas como Odete Lara, Tônia Carrero e Cacilda Becker (ao lado de Paulo Autran) iam às ruas lutar pelo fim da censura / Foto de Evandro Teixeira

Filhas do movimento político: parte das mulheres que hoje completam 50 anos nasceram sob a ditadura militar. Na época, artistas como Odete Lara, Tônia Carrero e Cacilda Becker (ao lado de Paulo Autran) iam às ruas lutar pelo fim da censura / Foto de Evandro Teixeira

Muitas de nós somos da primeira geração de mulheres cujas mães trabalhavam fora: bancárias, telefonistas, operárias, costureiras, domésticas…

No fim dos anos 50 e 60, elas abriram o caminho e nós continuamos desbravando e chegando ainda mais longe. O primeiro _ e enorme _ passo foi a redução das taxas de fecundidade. Sem um programa oficial de planejamento familiar, o Brasil _ que se tornara um país urbano _ deixava para trás a marca de 6,3 filhos por mulher na década de 1960. Hoje, temos 1,7 filho, abaixo da taxa de reposição da população.

O país do futuro está dando espaço a um país de cabelos brancos. Sem a garantia de dinheiro no bolso, fica o temor: quem vai financiar a nossa aposentadoria?

Brincávamos de boneca e encarávamos as aulas de Moral e Cívica enquanto os militares comandavam o país. Donas do seu tempo, as Tônias, Normas e Leilas iam às ruas contra a ditadura e pedindo o fim da censura.

Leila Diniz posando para lambe-lambe em Ipanema / Foto: Evandro Teixeira/IMS

Leila Diniz posando para lambe-lambe em Ipanema / Foto: Evandro Teixeira/IMS

Muitos anos mais tarde, chegou nossa hora: fomos para as ruas gritar pelas diretas-já. Mas algumas de nós já eram quase balzaquianas quando votaram pela primeira vez para presidente da República. Convivemos com a inflação corroendo o orçamento da casa e levamos muita bronca dos nossos pais para apagar a luz da sala “porque não éramos sócios da Light”.

Somos 15 milhões de mulheres na faixa de 50 a 65 anos no Brasil. Esse grupo etário dobrou nos últimos 20 anos e é o que mais vai crescer no país nos próximos anos, segundo especialistas em demografia. É bom, portanto, tentar entender como essas mulheres agem, como consomem, o que pensam.

Mulheres de 50 anos ou mais, no tempo de nossas mães e avós, eram senhoras com netos nos braços. Hoje, muitas ainda são mães de crianças e adolescentes. Privilegiando a carreira ou os estudos, adiaram a maternidade e, cientes dos avanços da reprodução assistida, confiaram que poderiam ter seus filhos mais tarde. Seus ninhos, portanto, ainda não estão vazios. Sem falar naquelas que ainda cuidam dos pais octogenários e que, vivendo mais, requerem cuidados especiais.

Aquela geração Ping-Pong que viu surgir a TV em cores e, na década de 80, se divertia ao som do Barão Vermelho, teve menos filhos e trabalhou duro. Pelos dados da População Economicamente Ativa (PEA), o número de mulheres chefes de famílias passou de 14,5% em 1992 para 28,8% em 2012. Muitas delas não têm companheiros, criam seus filhos sozinhas.

Nos últimos anos, elas também buscaram uma qualificação melhor do que suas mães puderam conseguir. Pelos dados do IBGE de 2010, dos 12,462 milhões que têm ensino superior completo no país, bem mais de metade (7,205 milhões) são mulheres. O número mais do que dobrou em dez anos.

O triste é que, mesmo mais escolarizadas, as mulheres continuam ganhando 20% a 25% menos do que os homens na mesma posição, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT). Sem falar que, somando o tempo do trabalho fora de casa e os afazeres domésticos, a jornada feminina é “esticada” em cinco horas semanais.

Há terrenos em que as conquistas empacam…

Mulheres na fábrica do creme dental Kolynos em São Paulo / Fotos: Chico Albuquerque/IMS

Mulheres na fábrica do creme dental Kolynos em São Paulo / Fotos: Chico Albuquerque/IMS

Mesmo trabalhando mais, dentro e fora de casa, estamos vivendo mais. Nos anos 60, quando muitas de nós nascemos, a expectativa média de vida do brasileiro era de 48 anos. Hoje, é de 74,9 anos. E as mulheres? Bem, a expectativa delas é de 78,6 anos. Enquanto isso, a marca dos homens é de 71,3 anos.

Essa mulher de 50 e poucos anos que teve o início da sua vida sexual num mundo aterrorizado pela Aids, hoje cria seus filhos numa sociedade em que muitos jovens pregam a “desconstrução” do gênero. A voz dessa mulher se levanta, nas ruas e nas redes sociais, pelo fim da violência e de qualquer tipo de discriminação e pelo direito de decidir o que fazer com o seu corpo. Por sua força e determinação, o país avançou com a Lei Maria da Penha, por exemplo.

A revolução de costumes por que passou o Brasil nas últimas cinco décadas obrigou nosso instituto oficial de estatísticas a pesquisar novos arranjos familiares, com casais do mesmo sexo, com casais descasados, com os filhos seus, meus e nossos… Os lares brasileiros mudaram… Em grande medida, isso só foi possível porque as mulheres mudaram…

As uniões consensuais triplicaram dos anos 1980 até 2010, passando de 11,8% para 36,4%, um número próximo ao de casamentos civis e religiosos. Para essas mulheres, subir num altar ou assinar um papel não teve qualquer importância. A guarda compartilhada dos filhos também revolucionou os lares.

As mulheres deixaram de ser “desquitadas” e, com a Lei do Divórcio, de 1977, puderam, legalmente, reconstruir suas vidas. O número de divórcios no país foi multiplicado por dez: eram 31 mil em 1984, quando o IBGE começou a pesquisa e, em 2014, foram 340 mil.

Não bastassem as mudanças no campo do comportamento, da cultura, da política, as garotinhas que conheceram o mimeógrafo na escola e fizeram curso de datilografia na adolescência, agora também mandam ver no Snapchat…

Cristina Alves

Cristina Alves

Tem um gostinho especial por trabalhar em equipe. Carioca, criada no Méier, subúrbio do Rio, tem experiência de mais de 25 anos de jornalismo diário. Participou da cobertura e/ou edição de todos os planos de estabilização do Brasil pós-redemocratização. Sua relação com o jornalismo econômico começou quando era “foca” no “Jornal do Commercio” e ainda cursava a Escola de Comunicação da UFRJ, onde se graduou. Fez especialização em Políticas Públicas na UFRJ e tem MBA de Petróleo e Gás pela Coppe-UFRJ. Trabalhou ainda no “Jornal do Brasil” e em “O Globo”, onde foi editora de Economia entre 2007 e 2014, depois de atuar como repórter e subeditora. Cobriu por diversas vezes o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Desenvolveu diversos produtos editoriais para plataformas impressa e digital. Hoje, é sócia da empresa Nau Comunicação. Casada, é mãe de João e Antônio. Adora mergulhar num bom livro.

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