Para transformar o mundo, comece por você

É um novo ano que se inicia. Tempo de renovar esperanças, de promover reflexões. Por isso, o Mulheres50mais começa 2017 publicando uma entrevista com a professora Ivana Samagaia, coordenadora do Instituto Brahma Kumaris, fundado em 1937 na Índia. Trata-se da maior organização espiritual conduzida por mulheres atualmente e que visa à transformação pessoal e à renovação do mundo. Hoje, o Brahma Kumaris está em mais de uma centena de países.

Como você vê os valores que estão em voga no mundo de hoje? Há um retrocesso, em escala mundial, dos níveis de preocupação com o outro quando se vê a ascensão de líderes políticos que defendem fechamento de fronteiras, construção de muros? Por outro lado, a tecnologia incentiva as selfies, a autopromoção. Estamos excessivamente autocentrados?

Ivana Samagaia: Os valores que as pessoas têm hoje são valores de fama, de dinheiro, de beleza.  Ninguém olha para dentro. Olhar para dentro significa enxergar um espelho de você. Se você se olha no espelho e vê umas ruguinhas, bota um botox, faz uma cirurgia plástica, sai para a academia. Aí fica até razoavelmente fácil resolver. Mas se você olhar o que você tem que consertar internamente, você tem que ir muito mais longe, enfrentar os seus próprios demônios. E isso exige muita coragem.

As pessoas não olham para dentro de si mesmas nem para o próximo? Estão mais individualistas?

Vejo que o ser humano valoriza muito a liberdade.  Todas as revoluções que aconteceram no mundo até hoje tiveram por essência a a busca pela liberdade, mas nós vivemos um momento hoje em que os valores estão equivocados e as pessoas confundem liberdade e individualismo. Liberdade não é, e nunca será individualismo. A liberdade implica em ser você mesmo, em viver junto e não ser influenciado. Para isso, no entanto, você precisa de respeito por si mesmo, de uma autoestima muito saudável.  E para ter uma autoestima saudável, você tem que se conhecer. Os seres humanos sentem-se muitas vezes atraídos pelos que são poderosos, bonitos, têm dinheiro… E sempre isso significa a perda do seu auto-respeito, da sua autoestima, da sua identidade. Você coloca a sua vida na mão de outras pessoas que geralmente são as pessoas erradas. Não lembro hoje de uma pessoa que esteja no poder em qualquer circunstância e que não represente isso. Sim, porque nós temos quatro poderes que governam o mundo: o poder da política, o da economia, o da ciência e tecnologia e o poder da religião. Os quatro estão num estado de decadência e degradação… O poder corrompe. A palavra corrupção, que hoje é um problema mundial, significa algo que não é mais íntegro, que está corrompido porque os valores estão equivocados. As pessoas perderam o senso do que é importante, do que realmente tem valor. Perderam o seu próprio valor, o senso de acreditar em si e o potencial de se conectar com o que é bom. Assim, acabam entregando a sua vida nas mãos de pessoas que têm o poder do dinheiro, da economia… As pessoas votam naqueles que acham que vão cuidar delas, que vão protegê-las e isso não existe. Na verdade, é você quem tem que cuidar de si mesmo, se proteger. E proteger-se significa estar bem consigo mesmo, ter estabilidade, força interna. Nós temos um poder na mente que pode ser para o bem ou para o mal. Aonde você foca a sua energia, terá resultado. Se a pessoa encara o fato de que tudo que acontece no seu entorno começa dentro de si mesma, ela entende então que a solução não está fora, mas dentro de si. O mundo não é como é. O mundo é como eu o vejo.

Explique melhor.

O mundo que vejo é o mundo que vem do meu estado interno, do meu estado de consciência. Hoje, a física quântica já sabe que tudo na matéria é a produção dos nossos pensamentos. Ou seja, a força do nosso pensamento movimenta os átomos. O estado do mundo representa o nosso estado mental.  Por exemplo, antes de uma pessoa pegar um revólver e matar alguém, ela já se armou internamente, já se tornou violenta. O que fazer para criar um mundo diferente? Todos querem um mundo de paz, de amor, de coisas boas, mas, na verdade, as pessoas não acreditam que podem reproduzir esse amor. Elas querem o amor de fora para dentro. Elas querem a paz de fora para dentro. Elas querem abundância, mas vivem eternamente um estado de escassez.  O medo é escassez. A insegurança é escassez. A necessidade de acumular é escassez, porque a energia da abundância é o fluxo da vida. O que flui é porque tem abundância e tudo começa de dentro.

Quem tem mais de 50 anos já viveu boa parte da vida e, muitas vezes, chega nesta fase acumulando frustrações e sonhos que não conseguiu realizar. Como ela pode encontrar paz interior, espiritualidade? O que você diria a esse homem ou a essa mulher?

Quando crianças, olhamos a vida de forma pura e bela.  Existe uma magia, algo que vem do nosso estado inocente.  Depois, na adolescência, passamos por uma fase de buscar uma definição para si o que, na verdade, é a perda da pureza porque nós estamos nos integrando a um sistema. Podemos dizer que 99% das pessoas se integram ao sistema. E aí você vai ser alguém que produz dentro de um meio de uma sociedade. Acho que a frustração existe quando chega-se a certa idade, aos 50 anos, por exemplo, com a sensação de ter servido a um sistema e ter perdido a sua identidade, perdido coisas que são importantes para você.   Mas a maturidade traz também uma serenidade em relação à vida. Não é por acaso que as pessoas, nessa fase, muitas vezes se sentem como se voltassem a ser crianças. Se quero tomar banho de mar à meia-noite, se quero pegar uma flor, se quero rir, por que não? Perde-se aquela necessidade da aprovação dos outros. É como se a maturidade trouxesse uma força interna que nos permite olhar para dentro e enfrentar nossos demônios, exorcizá-los.   Na Índia, por exemplo, as pessoas chegam aos 50, 60 anos e se dedicam à espiritualidade. Largam a vida mundana. Porque o momento é de voltar-se para dentro, redescobrir-se, valorizar a vida que você construiu.

Mas muitas vezes a pessoa olha e não gosta do que vê… O que fazer?

Ela não gosta porque, provavelmente, está influenciada por valores externos. A arte da maturidade é a arte de rir de si mesmo, de aceitar tudo o que se fez de bom, de ver o benefício de tudo o que aconteceu.  No geral, temos uma formação espiritual muito judaico-cristã e, por isso, o tempo todo, nos punimos, nos castigamos. Queríamos ser mais e se não conseguimos, desenvolvemos uma auto-punição. O “pecado” é a transgressão que a alma faz à sua própria verdade. E a verdade é que somos amor, paz,   felicidade em nossa essência. A pessoa se culpa como se fosse responsável pelas coisas que não correram bem na sua vida, mas a espiritualidade permite que você se perdoe, que você veja fez o seu melhor, mesmo naquilo que não deu exatamente certo.

A pessoa deveria ser mais generosa consigo mesma?

Sim. Nós temos um programa da Brahma Kumaris que foi criado por um membro da Austrália, que é o projeto “As quatro faces da mulher”. A primeira é a da inocência, da pureza. A segunda é a da mulher profissional, aquela que se adaptou ao meio, à tradição. Ou seja, que se inseriu num contexto com base naquilo que esperavam dela: a menina que brinca de boneca, a que aprende tudo parece ser uma boa esposa, uma boa mãe. A outra é a face moderna, que quer liberdade e autonomia  de dizer o que eu pensa, que quer trabalhar, se sustentar, que não quer vínculos que a escravizem. O que é muito comum hoje, mas que também é uma mulher que sofre muita pressão porque ela, na verdade, se masculiniza nesse processo. Depois vem a face que nós chamamos de Shakti, que é deusa, aquela que tem poder espiritual, que transforma, mas não precisa se deformar nesse processo. Ela usa o poder espiritual que ela tem e desenvolve o auto-respeito, a autoestima e se posiciona sem se violentar, sem violentar os outros. A história da Brahma Kumaris é a de uma organização fundada com base na ideia de que as qualidades necessárias para mudar o mundo são femininas.

Como a Brahma Kumaris atua, sendo uma grande organização liderada por mulheres?

Desde 1975, quando saiu da Índia para o Ocidente – e hoje está em mais de 140 países – , a Brahma Kumaris é uma organização comandada de forma totalmente altruísta. Não cobramos por qualquer atividade nossa. A instituição vive de doações. As dadis (irmãs mais velhas), que coordenam a organização, não têm perfil de administradoras. Não são mulheres de negócios, são avós e atuam com base no amor. As pessoas são inspiradas por amor e isso lhes dá força. É uma forma de liderança que, para mim, é verdadeira. Ou seja, é a inspiração que movimenta essa organização. A Humanidade tem que redescobrir a sua capacidade de doar porque tudo que nós doamos volta para nós. O amor é a energia mais poderosa do universo. Mas a gente o valoriza tanto que o guardamos dentro de nós para ninguém pegar. E energia tem que fluir.  Se você guarda a sete chaves, ela não flui. Você não sente o amor.

Ivana: “Aos 50, 60 anos, o momento é de voltar-se para dentro, redescobrir-se, valorizar a vida que você construiu.” Fotos de Ana Lúcia Araújo

Num mundo bombardeado por consumismo, por constantes avanços tecnológicos, como exercitar o amor, como redescobrir os desejos da alma? Meditação ajuda? 

Pelo autoconhecimento.  Para nós, a meditação é algo dinâmico e não ritualístico. As pessoas tentam se preencher com coisas externas, por meio de status social, de beleza física, mas tudo é uma grande ilusão. Elas trabalham muito para ganhar dinheiro e comprar coisas que geralmente não são necessárias. Mas usam isso para agradar a outras pessoas que também não valorizam.  Então, o que existe sempre é um vazio.  Com a tecnologia, acontece a mesma coisa. Ela é boa  porque nos proporciona acesso a coisas instantaneamente. Temos aulas na Índia, por exemplo, que assistimos aqui na mesma hora. Você pode falar com um amigo que está no Japão ou na Austrália usando Skype ou WhatsApp, com baixo custo. Mas tem o outro lado que escraviza as pessoas. Elas ficam totalmente dependentes dos seus aparelhinhos.  Não é à toa que a gente chama de iPhone, de iPad.  Tudo é “eu, eu, eu” (risos).  Tudo o que chamo de meu, na verdade, me possui. Quando digo que algo é meu, me identifico com aquilo de tal forma que ele passa a fazer parte da minha identidade. Você pode ter tudo isso e não ter o sentimento de posse porque, espiritualmente, as coisas vêm para nós e nós as usamos enquanto estivermos nesse mundo. O medo da morte é o maior medo que o ser humano tem e o dia da morte virá para todos nós.

Como lidar com ele?

Tentamos adiar, ao máximo, o fato de que um dia não vamos mais existir. Na verdade, tudo isso é um processo egóico. Se você começa a meditar, chega essa a conclusão. Mesmo que as pessoas chorem um pouco, um dia você será apenas um retrato em cima da mesa. Todos nós vamos ser esquecidos um dia.  Então, estamos presos a uma coisa muito frágil. A Brahma Kumaris tem uma visão oriental da espiritualidade e sempre costumo dizer que quando você quer um conselho, você pede uma orientação e não uma ocidentação (risos)… Nós, evidentemente, acreditamos na reencarnação, que é o que dá sentido a todas as coisas que acontecem para nós.  O fato de que já tivemos outros papéis, de que a morte é só uma mudança.  É uma troca de roupa para a alma.  É como se nós fôssemos o ator vivendo um personagem. Daqui a pouco, você troca de contrato, deixa um papel e passa a desempenhar outro. Para a alma, no entanto, nunca há fim.  Tanto que, em algumas civilizações, quando há uma morte, eles festejam.  Faz mais sentido.  Quando chega a hora, você vai e voltará de novo, como um bebezinho. E voltará de acordo com o seu processo cármico.  Tudo que eu construir para mim, como a paz, o amor, a felicidade, tudo o que me constitui internamente, voltará comigo. É um programa de milhagem… O que dá sentido à vida é pensar que já houve outras vidas e que cada nascimento nosso é uma nova oportunidade, uma nova descoberta.

Quando a criança está no ventre da mãe, ela recita o mantra: “que eu não esqueça quem eu sou, que eu não esqueça quem eu sou”…  Porque nós entendemos que a criança entra no ventre quando o corpo está formado, a roupa está pronta. E quando o bebê começa a se mexer na barriga da mãe, a alma está ali.  Antes, era só um óvulo  fecundado em transformação.  Quando a criança nasce, ela muda o mantra e diz: “já esqueci, já esqueci….” O momento do nascimento é como se passasse um mata-borrão.  A criança esquece de tudo. É isso que dá o poder da inocência e da pureza.  Se você carregasse consigo todas as lembranças dos outros nascimentos,  você ia nascer com medo, inquietação, traumas…

É como se zerasse…

Dá uma zerada, sim, mas, ao mesmo tempo, há uma caixa preta Ou seja, há um registro da alma, mas a pessoa não se lembra. Vai relembrando à medida que ela vai vivendo as situações.

É por isso que, quando você encontra certas pessoas, acha que já as conheceu? Soam familiares.

Sim, pode criar uma afinidade imediata com uma pessoa porque já tem uma conexão com essa alma. Vocês se reencontraram. O contrário também acontece.  Você encontra uma pessoa e parece um porco espinho, gera uma antipatia. É porque você já tem uma história cármica com aquela alma. E há situações em que também acontece isso.  Por exemplo, uma pessoa que morreu num naufrágio vai ter medo de mar, de viajar de navio.

Você costuma falar que temos entre 30 mil e 50 mil pensamentos por dia. Como canalizá-los para algo positivo?

Sim, nossa mente é como um carro em alta velocidade. A gente pensa demais e acaba falando e fazendo coisas que não queria. As pessoas pensam que meditar é uma solução porque esvazia a mente. Mas isso é uma ilusão porque, enquanto eu estiver no plano físico, tenho que pensar. Se parar de pensar, eu morri. O exercício da meditação é para começar a ter controle sobre o seu pensar. É um processo interno porque não podemos ter controle sobre o que os outros pensam, sobre as situações que acontecem no mundo ou na nossa família. A única coisa que posso fazer é ter controle sobre como eu reajo, entender como me sinto em relação ao que alguém falou ou fez. E essa sensação é ótima. Nesse momento, começamos a ter a chave das nossas conexões. E enxergamos a própria beleza, a paz. A nossa essência é divina é positiva e, quando alcançamos esse estágio, podemos voltar a ser aquela criança inocente com a sabedoria de um ancião. Isso é espiritualidade, que nos permite ser um mestre e uma criança inocente ao mesmo tempo.

Cristina Alves

Cristina Alves

Tem um gostinho especial por trabalhar em equipe. Carioca, criada no Méier, subúrbio do Rio, tem experiência de mais de 25 anos de jornalismo diário. Participou da cobertura e/ou edição de todos os planos de estabilização do Brasil pós-redemocratização. Sua relação com o jornalismo econômico começou quando era “foca” no “Jornal do Commercio” e ainda cursava a Escola de Comunicação da UFRJ, onde se graduou. Fez especialização em Políticas Públicas na UFRJ e tem MBA de Petróleo e Gás pela Coppe-UFRJ. Trabalhou ainda no “Jornal do Brasil” e em “O Globo”, onde foi editora de Economia entre 2007 e 2014, depois de atuar como repórter e subeditora. Cobriu por diversas vezes o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Desenvolveu diversos produtos editoriais para plataformas impressa e digital. Hoje, é sócia da empresa Nau Comunicação. Casada, é mãe de João e Antônio. Adora mergulhar num bom livro.

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