Quando a vida é uma
luta sem trégua

Ao chegar ao Maranhão para entrevistar as quebradeiras de coco de babaçu, pensava estar emocionalmente preparada para todas as situações. Mas, à medida em que ouvia os relatos, fui tomada pela emoção. Mulheres mais jovens do que eu mostravam-se resignadas com uma pobreza que me parecia insuportável. A rotina é tão árdua que não conseguem ver mudanças positivas na virada dos cinquenta anos. Estão ocupadas demais com a sobrevivência dos seus para pensarem nelas mesmas.

As quebradeiras de coco vivem na região de mata nativa do babaçu e tiram seu sustento do extrativismo: coletam os frutos secos no chão e vendem a castanha para intermediários, que a revendem como matéria-prima para a indústria de cosméticos e de material de limpeza.

É uma atividade de risco. Elas prendem o machado entre as pernas, com o corte voltado para cima, colocam o coco sobre a lâmina afiada e desferem golpes com um porrete. O movimento é repetido por horas a fio. O quilo da castanha é vendido a menos de R$ 2 e elas relatam produzir entre 10 e 15 quilos por dia.

As matas de babaçu cobrem grande parte do Maranhão e são conhecidas como a região dos cocais. As mulheres que entrevistei são dos povoados dos municípios de Codó e Pedreiras. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), um terço da população destes municípios com idades a partir de 15 anos é analfabeta. Quanto mais alta a faixa etária, maior é o percentual de analfabetos.

Elas moram em casebres de barro e cobertura de palha, construção comum nesta área rural. As casas praticamente não têm móveis. Apenas redes para dormir, algumas cadeiras e utensílios. É corriqueiro nos povoados maranhenses encontrar grupos de mulheres quebrando coco na frente das casas. O trabalho conjunto é uma forma de aliviar a rotina e torná-la mais suportável. Elas conversam e trocam confidências, em meio ao toc-toc-toc constante do coco sendo quebrado.

Mães dos próprios netos

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Raimunda se orgulha dos netos que cria e diz que é feliz. Foto de Elvira Lobato

Raimunda Mendes da Silva, 52, mora com os três netos pequenos na periferia de Codó. São filhos da primogênita, que fugiu do marido, deixando para trás as duas crianças maiores. Passado algum tempo, o menor também foi morar com a avó. A outra filha, que ainda não saiu de casa, é solteira e está gravida.

A rotina de Raimunda começa antes das 5h da manhã, pois tem de deixar a comida pronta para a família antes das 7 horas, quando o caminhão da prefeitura passa para levar as quebradeiras para a mata. Se perder o caminhão, não terá dinheiro naquele dia. Ela sai de casa levando comida e água, além dos instrumentos de trabalho (machado, porrete e o cesto para trazer as castanhas). O caminhão parte lotado com mulheres de todas as idades e só retorna ao entardecer. Antes de dormir, ela arruma a casa e lava a roupa.

Raimunda nasceu na área rural de Coroatá (município próximo de Codó). Estudou até a terceira série do ensino fundamental, mas mal sabe ler e escrever. Aos doze anos, começou a ajudar o pai na lavoura de arroz. Trabalhava para ajudar a família, sem receber dinheiro.

“Minha mocidade foi só de trabalho. De ano em ano a gente ia a algum festejo. Fora isso, era só labuta.”

Casou-se aos dezoitos anos, e o sofrimento só mudou de endereço. O marido era lavrador e depois de seis anos de casamento, foi para o garimpo de Serra Pelada, no Pará. Ainda não tinham filhos, e ela ficou cuidando da roça. Ele voltou depois, sem dinheiro e com malária. Ficaram mais três anos juntos, e nasceram as duas filhas. “Tive minhas filhas em casa. Os partos foram muito difíceis. A parteira passava azeite de mamona na minha barriga e me dava ovo cru para comer”.

O marido partiu de novo para o garimpo, e ela ficou com a responsabilidade de criar as meninas. Ele ainda voltou mais uma vez antes de ir embora definitivamente para o Pará. “Criei as filhas quebrando coco. Ia para a mata levando feijão com farinha, às vezes só farinha, para comer. No final do dia, vendia as castanhas e comprava um quilo de arroz, meio quilo de café, um quilo de açúcar”.

Ela diz que perdeu o útero aos 29 anos, por não ter feito resguardo após o parto da segunda filha. Referiu-se ao útero dizendo que “a mãe do corpo saiu para fora” por excesso de esforço e que os médicos tiveram de operá-la.

Tinha pouco mais de 30 anos quando o marido foi embora. Nunca mais quis um relacionamento amoroso. “Ter marido para quê? Para arrumar mais filho para criar?” Mas diz ser feliz e se orgulhar dos netos. O maior deles vai com ela para a mata nas férias escolares.

Este é o meu jeito de ser feliz

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Maria das Dores é quebradeira de coco há mais de 40 anos. Foto de Elvira Lobato

Maria das Dores Ferreira de Souza ainda não completou 50 anos, mas tem a sensação de ter vivido muito mais. Com cinco filhos e dez netos, ela mora no povoado de Santa Rita de Moisés. Nunca frequentou escola e aos nove anos começou a ajudar a mãe a quebrar coco na mata.

Sem demonstrar mágoa, conta que se casou aos dezenove anos e que a mãe dela fez os partos de três de seus filhos. Quando o caçula tinha nove meses, o marido foi para São Paulo, trabalhar como ajudante de pedreiro. Nunca mais voltou. Mandava algum dinheiro para ajudar, mas ela criou os filhos sozinha.

Quando uma de suas filhas engravidou solteira, decidiu criar o neto para a filha poder estudar. “Esse é meu. Vá trabalhar e cuidar dos estudos”, decidiu a mãe. O menino, muito sorridente, a ajuda nos afazeres domésticos e lhe faz companhia.

Maria das Dores tem uma rotina de tirar o fôlego. Acorda antes das 5h, prepara o café da manhã e almoço e leva o neto para a escola. Em seguida, cozinha e limpa as casas de duas velhinhas, aposentadas pelo Funrural. Cada uma paga a ela R$ 150 por mês. De volta em casa, quebra coco até o entardecer. Três vezes por semana, torra as castanhas e extrai o azeite, que vende a R$ 10 o litro.

Mesmo em meio a tudo isso, ela afirma que se sente feliz. “Estou viva, e ter conseguido criar os meus filhos é bom demais. Esse é o meu jeito de ser feliz.”

Ela conta que teve namorados eventuais, mas não pensa em casamento. “Fui machucada uma vez. Não quero mais colocar homem em casa”, afirma. Além disso, acha que perderia o respeito dos filhos.

Várias mulheres que entrevistei associam a menopausa a sofrimento. Dor nos ossos, insônia, fadiga, nervosismo, foram as maiores queixas relatadas. Contam que chegaram a procurar tratamento médico, mas não tiveram dinheiro para os remédios.

Fugiu com um rapaz que parecia índio

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Gildenita vive com um companheiro mais jovem e diz que essa é a melhor fase de sua vida. Foto de Elvira Lobato

Aos 15 anos, Gildenita Carneiro da Silva se apaixonou por um rapaz bonito, de feições indígenas. O pai não aceitava o namoro porque o rapaz não gostava de trabalhar na lavoura. Então, ela fugiu com ele. Aos 16 anos, foi mãe pela primeira vez e o pai dela, enfim, aceitou o relacionamento do casal. Quando o segundo filho estava com oito meses de idade, o marido se foi com outra, e a avó materna criou as crianças.

Depois disso, Gildenita teve mais sete filhos e doou duas meninas para outras mães criarem. Diz que entregou a primeira por não ter condição de sustentá-la e a segunda, por ter contraído uma infecção após o parto.

As filhas que ela doou não a aceitam como mãe por se sentirem rejeitadas. Outros cinco filhos se foram e construíram a vida em outros Estados. Aos 55 anos, Gildenita tem uma neta de 25 anos e três bisnetos.Vive com um companheiro, o pescador Antônio Ferreira da Cruz, cinco anos mais jovem. O sustento do casal ainda depende do coco de babaçu. A primogênita repete sua história: aos 38 anos, é analfabeta e tem oito filhos.

Gildenita acredita que entrou na menopausa, aos 49 anos, por causa da morte da mãe. “Eu estava menstruada, e o susto fez subir a menstruação. Tenho dificuldades para dormir, sinto calores e fico tão nervosa que brigo com as galinhas. Como não tenho dinheiro para comprar remédios, tento não pensar nisso e viver o melhor possível”.

Apesar da precariedade de sua situação, ela se declara em seu melhor momento de vida.

Elvira Lobato

Elvira Lobato

Mineira, de uma família de 17 irmãos, foi criada na zona rural de Pitangui, na região do Cerrado. Aos 19 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde participou da resistência à ditadura e construiu sua carreira de repórter. Formada pela UFRJ, atuou na imprensa escrita por 39 anos, 27 deles na “Folha de S. Paulo”, onde fez parte do núcleo de repórteres especiais de 1992 a 2011, quando se aposentou do jornalismo diário para se dedicar a projetos pessoais. É autora do livro “Instinto de Repórter”, sobre seus métodos de investigação jornalística. Está no ranking de jornalistas mais premiados do Brasil. Recebeu, entre outros, o Prêmio Esso de Jornalismo, em 2008, pela reportagem sobre o patrimônio dos dirigentes da Igreja Universal do Reino de Deus. Em janeiro de 2016, publicou a reportagem “TVs da Amazônia Legal-Realidade que o Brasil Desconhece”. Aos 62 anos, casada, tem três filhos e dois netos. Alimenta sua alma de repórter com incursões pelo interior para fotografar e coletar histórias da gente brasileira. Faz bordados lindos e um pão de queijo….

1 Comment

  • elizabeth oliveira

    Bravas mulheres brasileiras que desejam tão pouco da vida para se sentirem felizes. Brava e sensível repórter…Linda matéria!

    26 de novembro de 2016 em 3:11 pm

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