Quando o ovo frita no peito

Um dia desses, acordei com um ovo fritando no peito.

Não sei precisar quando, mas em algum momento dos últimos, sei lá, dois meses. De repente, do nada, às vezes 30 segundos depois de acordar, o peito se enchia de um óleo quente fritando um detestável ovo, surgia no corpo todo uma dormência que não é dormente, é ativa como uma coceira. Que imobiliza a ação e ao mesmo tempo faz com que se agitem as pernas, a cabeça, se olhe em volta tentando descobrir que macaco turbinado é esse que incorporou na gente.

Uma esquisitíssima condição emocional, que eu nunca tinha vivido: ansiedade quase incapacitante. Em certos momentos, incapacitante mesmo. Paralisante.

Primeiro, achei que era cansaço. Era, também, claro, foram muitos trabalhos encavalados nos últimos tempos, o medo de ficar sem grana por trás, os apertos de todos. Mas o treco não passava com o descanso (arrá, quem consegue descansar com o macaco pulando?). Depois, achei que era preocupação com o futuro profissional, mudança de paradigmas, passaralhos, amigos em dificuldades, fazer assessoria de imprensa para que imprensa, afinal?… Mas eu estou bem, fazendo coisas interessantes e ainda mais tendo um projeto pessoal superbacana. Nananinanão.

Podia ser também excesso de desilusão com cunhas, renans eticéteras. De um país que produz esses choques de 220 volts de 12 em 12 horas não se pode esperar serenidade interna, né, cidadão?

Aí lembrei do pavoroso acidente com o avião, que levou tanta gente e mais os jornalistas a trabalho – e eu achei que poderia ser reação ao acidente que levou minha mãe mais de 30 anos atrás, os jornalistas juntos num avião batendo no morro.

Descartei medos do linfoma – que tratei duas vezes, 2009 e 2012 com transplante de medula – logo de cara: estava na hora do exame semestral, completo, total, não acusou nada. Filha, amigos próximos e família, tudo na mais perfeita.

Ay meu carajo, meu clipedaclarice.

Negócio é que o ovo não saía do peito, e fritando no óleo diesel, fedorento, aqueles pinguinhos saltando da frigideira, queimando tudo. Para cumprir o meu mínimo autoexigido, ficava dez vezes mais tempo na frente do laptop. Rodando a manivela até cair dura, e produzindo muito menos do que queria/precisava/esperava. Ia ficando cada vez mais difícil, e a musiquinha era a mesma (o macaco cantava, também): “a culpa é suaaaaa, faz alguma coisaaaaaaa, você tem que resolveeeeeer, lalalalalala”.

Nesse ponto, achei que ficaria muito melhor dormindo uma semana do que fazendo qualquer outra coisa. Perigo, Will Robinson, perigo.

Uma luz bateu na moleira certa tarde, debaixo do chuveiro – e atinei com a melhor imagem possível do que estava se passando comigo: a Síndrome do Coelho de Alice. “Estou atrasado! Estou atrasado! É muito tarde, muito tarde”, ele grita. Era isso. Eu sentia exatamente isso! Atrasada, atrasada, mas para nada. Era só a angústia do atraso.

Decidi parar, tratar e entender, com ajuda profissional. Uma das pistas que faziam muito sentido era o conceito de Burnout. Se era alguma dessas coisas acima? Todas. Combinadas, superalimentadas umas pelas outras.

Um artigo espetacular de Josh Cohen, na revista 1843, suplemento da The Economist ajudou muito (obrigada, Carlos!). Em inglês, quem puder leia, leia, leia aqui. Li ali que o termo foi cunhado em 1974 por um terapeuta chamado Herbert Freudenberger para definir o “colapso físico ou mental por estresse ou sobrecarga de trabalho”. Cohen relata casos de gente jovem e cheia de sucesso abatida pelo Burnout, lembra que relatos de melancolia e outros bichos existem desde a Antiguidade.

Penso ainda uma coisa, podem me contradizer aê, mas eu acho: nós, os maisdecinquentistas juramentados, vivemos inteirinha a mais descompensadora transformação da História, porque muito rápida e global. Fomos crianças e jovens totalmente analógicos, dragados para o mundo inteiramente digital. Não é nostalgia, não estou mimimizando aqui, não. Quase ninguém gosta tanto desse universo quanto eu, mas havemos de convir que essa passagem pode criar em muitos de nós a angústia do infinito. Estamos em um universo onde o natural é estar perdido no espaço, numa terra de gigantes.

Exemplinho com personagens da minha vida diária, livro e rede. Se, antes da internet, um livro era uma janela para o novo, o mundo, a descoberta, minha impressão hoje é que o livro nos consola essencialmente porque tem começo, meio e fim. Está ali, sem o infinito e velocíssimo desdobramento de fatos e as duzentas mil opiniões agregadas. Angústia do infinito, repito. Vamos esticando o elástico até que ele perca as fibras? Ou arrebente? Ou queime, para ficar no leque da terminologia da síndrome?

Sim, voltei para a terapia e engatei no remedinho, assistida por gente competente e querida. Foi um fim de ano do alívio. Mandei o macaco aprender um novo repertório. Aceita aí um coelho assado com ovo frito?

Luciana Medeiros, especial para Mulheres50mais

Luciana Medeiros, especial para Mulheres50mais

Luciana Medeiros, 55, carioca, jornalista formada pela PUC, foi repórter, editora, apresentadora em rádios (MEC e JB), trabalhou no jornal O Globo, em revistas e internet — hoje editando site, e muito contentinha. Fez e faz assessoria de imprensa na área cultural. Em outra encarnação profissional foi cantora. Escreveu dois livros em parceria com João Luiz Sampaio (as biografias do violoncelista Antonio Meneses e da pianista Guiomar Novaes) e organizou/editou o livro "Cronistas falam de superação". É idealizadora e coordenadora do site Tutti Clássicos. Tem uma filha espetacular. Tem os melhores amigos do mundo. Tem vontade de escrever ficção, mas não se considera capaz. Não tem mais linfoma, não, senhores. E assim pretende permanecer.

1 Comment

  • Helen Faria

    Estes avanços que nos dilatam e comprimem ao mesmo tempo…difícil.

    Bela escrita! Apóio o livro. 😊

    11 de janeiro de 2017 em 10:01 am

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