Pompoarismo não é só prazer. É muito mais

Terapeuta corporal mostra técnicas para cuidar da região pélvica como práticas de prevenção do envelhecimento e para ter mais prazer.

Libertação. É isso o que a bailarina e terapeuta corporal Monica Pimenta busca para si e para as mulheres com quem convive. Sentada no chão de pernas cruzadas e coluna ereta, ela diz que a sua missão é provocar, enquanto manuseia com naturalidade alguns acessórios vendidos em sexy shops. São bolinhas tailandesas, parecidas com as de pingue-pongue e unidas por um cordão de silicone; objetos ovais chamados de cones, com pesos diferentes; e um bullet  —  nome de um pequeno vibrador cor-de-rosa choque movido a pilha.

Ela explica a provocação: todo o material é usado para ensinar pompoarismo, prática de exercícios para a vagina. A terapeuta se surpreendeu ao perceber que, mesmo para uma profissional da dança, a região da sexualidade feminina no corpo permanece um tabu, intocada. “A gente mexe desde a pontinha do pé até a ponta da cabeça, mas, e a vagina? Está dormindo”, constata. Basta explicitar as palavras que dão nome às partes pouco visíveis do corpo para provocar reações de vergonha. Constrangidas, as mulheres se afastam, especialmente quando se fala de pompoarismo.

Não é à toa. A técnica milenar, surgida na Índia e disseminada na Tailândia, se popularizou no Ocidente pelo viés da pornografia. “Quando busquei informações na internet, fiquei bastante incomodada de ver a postura desrespeitosa, de vulgarização, falando da mulher como objeto sexual para satisfazer o homem”, descreve Monica. Depois de aprender e constatar os benefícios da técnica, decidiu enfrentar o desafio de reinventar o modo de transmitir esse conhecimento. Para falar do tema como acha que elemerece ser tratado, criou uma página no Facebook, Feminino PraZer.

A bailarina e terapeuta corporal Monica Pimenta explica como cuidar da região pélvica para ter mais prazer e prevenir o envelhecimento. / Fotos de Ana Lúcia Araújo

A bailarina e terapeuta corporal Monica Pimenta explica como cuidar da região pélvica para ter mais prazer e prevenir o envelhecimento. / Fotos de Ana Lúcia Araújo

Mulher selvagem

Segundo a filosofia iogue, é na região pélvica que está o localizado o chackra básico — um dos sete principais centros de canalização de energia do corpo, relacionado à vitalidade tanto física quanto sexual. “Tocar nessa parte do corpo ativa a criação, possibilita a realização e a concretização. Os cuidados nesse campo fazem parte da prevenção ao envelhecimento”, ensina Monica, às vésperas de completar 50 anos. A bailarina é formada em reeducação motora e terapia através do movimento e fez pós-graduação em Gerontologia, ciência que estuda de maneira multidisciplinar o processo de envelhecer.

Para falar de pompoarismo e prazer, a terapeuta promove mensalmente o encontro Território Mulher, no qual mistura linguagens da dança e dos símbolos para criar um ambiente lúdico e descontraído. Em torno de um tecido vermelho, convida as participantes a se sentarem no chão, apresenta os acessórios, conversa, usa música e estimula a leitura de trechos do livro Mulheres que correm com os lobos — mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem, da psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés, objeto de seus estudos desde 2005.

O livro passa de mão em mão, com alguns textos marcados para leitura em voz alta. “Simbolicamente, convido a mulher a construir seu território. Qual é o lugar que você ocupa no mundo, na vida, no trabalho, na relação com o outro?”, volta a provocar. A proposta é se despir da autocrítica negativa —  de se considerar feia, gorda, dura, fora da idade para novas experiências. “Esse território é o lugar de desconstruir tudo isso e de se permitir. Conhecer a sua mulher selvagem é encontrar essa vitalidade que a mulher perde quando se vê afastada do seu corpo. Quando essa mulher de 50 anos se encontra, de dentro para fora, sua beleza é muito mais forte e potente do que a daquela menina de 20 anos. É uma sensação de muito poder”, defende Monica.

“Aproximar-se na natureza instintiva não significa desestrutura-se, agir como louca ou descontrolada. Significa exatamente o oposto. A natureza selvagem implica delimitar territórios, ocupar nosso corpo com segurança e orgulho, independentemente dos dons e das limitações do corpo, adequar-se aos próprios ciclos e manter o máximo de consciência possível”. Trecho do livro Mulheres que correm com os lobos, da psicóloga junguiana Clarissa Pinkola Estés.

Autodescoberta

Ninguém tira a roupa: os exercícios explicados durante as vivências devem ser praticados em casa, depois das explicações da função de cada acessório. Monica compara a prática a um tipo de pilates para a musculatura da vagina. “Quando eu conheço meu corpo, vejo que posso acordar músculos que estavam dormindo e, além de prevenir problemas, aumento meu prazer sexual. Isso é maravilhoso, é libertação”, afirma a terapeuta, que recomenda a técnica para todas as mulheres, com ou sem parceiros, como forma de autodescoberta. Depois da vivência, ela pede às participantes que se sentirem à vontade para gravar vídeos sobre a experiência. “O depoimento de cada mulher pode ser a libertação de muitas mulheres aprisionadas”, acredita.

As alunas recebem a apostila em casa e, se quiserem, os acessórios seguem pelos Correios — sem nada na embalagem que possa identificar o conteúdo. Além dos encontros mensais, é possível aprender a técnica do pompoarismo em uma aula de três horas (em grupos de até seis mulheres) ou de uma hora e meia (individual). Para quem não quer se mostrar, há ainda a possibilidade de aprender por chamada de vídeo, na qual apenas a professora se mostra para explicar o uso dos acessórios. “Vejo que a sexualidade é um campo de muita solidão, em que as pessoas vivem sérios problemas. Acompanho histórias lindas, mas outras muito doídas”, atesta Monica.

Musculatura do Assoalho Pélvico

Os exercícios de pompoarismo podem ser feitos com e sem acessórios. São muitas as semelhanças com técnicas usadas em fisioterapia para reforçar a chamada Musculatura do Assoalho Pélvico (MAP) — um conjunto de músculos e ligamentos no fundo da bacia óssea que sustentam na mulher órgãos como o útero, ovários e bexiga. Estão situadas ali as saídas da uretra, intestino reto e da vagina, área privilegiada pela técnica do pompoarismo.

O enfraquecimento dessa musculatura é provocado principalmente por pressões internas no abdômen ao longo da vida, que se agravam com o envelhecimento e as mudanças hormonais. A gestação provoca sobrecarga de peso e o parto, tanto normal quanto por cesariana, causa lesões. Este desgaste pode gerar problemas, como incontinência e infecção urinária, além do prolapso genital — popularmente conhecido como bexiga caída, quando a musculatura cede e precisa ser corrigida por cirurgia. “Se você não cria mobilidade no seu corpo, já está em processo degenerativo. As perdas começam aos 30 anos”, diz Monica.

Acessórios

Monica Pimenta manipula os acessórios usados para treinar a técnica do pompoarismo / Foto de Ana Lúcia Araújo

Monica Pimenta manipula os acessórios usados para treinar a técnica do pompoarismo / Foto de Ana Lúcia Araújo

Cada corpo é um corpo e responde de maneira diferente aos estímulos. A regra comum para praticar o pompoarismo é respeitar seus limites e começar os exercícios devagar, por curtos períodos de tempo, dois dias por semana. Os movimentos de contração e relaxamento da musculatura pélvica, sem o uso de nenhum objeto, podem ser feitos até mesmo no trajeto de ida e volta ao trabalho — enquanto a mulher viaja de ônibus ou de metrô, por exemplo. “Você se exercita e ninguém vai perceber”.

Os “aparelhos de ginástica” mais comuns são os cones vaginais, que têm pesos variáveis de 20g a 70g e são usados para trabalhar os anéis do canal vaginal. A recomendação do peso depende do estágio da musculatura de cada mulher e seu efeito é o mesmo da musculação. Já as bolinhas tailandesas, chamadas de Ben-wa, são indicadas para exercitar força e coordenação motora. Devem ser feitos movimentos de sucção e expulsão.

Tanto os cones como as bolinhas tailandesas têm cordões de silicone presos na parte superior para facilitar o manuseio. “Muita gente se preocupa de ‘perder’ os acessórios lá dentro. Isso é um mito”, explica a terapeuta, que recomenda o uso do vibrador antes dos outros aparelhinhos. O bullet, semelhante ao cone, mas sem o mesmo peso, é usado para ativar a circulação. Por fim, a terapeuta recomenda: para fortalecer a musculatura pélvica, usem a criatividade. E sejam bem-vindas à prevenção do envelhecimento, com muito prazer!

Claudia Lima

Claudia Lima

Começou a vida de repórter em 1988 no jornal “O Dia”, meses depois de formada pela UFRJ. Em 12 anos na empresa, aprendeu o ofício, ganhou experiência e prêmios de reportagens em equipe, como o Líbero Badaró 1998, com a série “Morte em nome da Lei”. Foi repórter sênior no “Jornal do Brasil” e escreveu para as revistas “Conjuntura Econômica” da FGV/RJ e da Petrobras. Desde 2002, atua na comunicação do serviço público. Primeiramente, na Secretaria de Fazenda da Prefeitura do Rio e hoje trabalha na Fiocruz. Em 2015, publicou o livro “O Inca Voluntário e suas histórias: a força da solidariedade”. Filha de pai mineiro e mãe alagoana, nasceu e vive na cidade do Rio de Janeiro, mas sempre foi mais de montanha que de praia. Não dispensa um bom papo, adora longas caminhadas e acha o bom humor fundamental para se viver.

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