Podemos ser protagonistas de nossa própria vida

A fala é mansa, mas o tom é firme. Os gestos largos ajeitam os óculos ou reforçam com as mãos um ponto de vista. O olhar não desvia do interlocutor. No fim de tarde, no consultório em Copacabana, o assunto vai desde as transformações das mulheres aos 50 anos, passando pela sexualidade, até a revelação dos diários para anotar coisas importantes. Boas e ruins, que aconteceram durante o dia. Manter essa rotina de escrever é uma das ferramentas que a psicóloga Adriana Marques dos Santos usa para fazer a revisão de sua própria história. O gesto de anotar, segundo ela, é uma dica importante para a gente olhar com mais cuidado a própria vida: analisando o passado, vivendo o presente e projetando o futuro. Mas sempre com o cuidado de não ficar presa ao passado.

A chegada aos 50 anos provoca um maremoto de emoções e transformações hormonais e serve, segundo ela, para nortear o que virá depois. “É uma fase excelente de muitos significados, onde podemos descortinar e desenvolver coisas novas, buscar outros caminhos e sair daquele modelo em que alguns insistem ao dizer que a mulher tem que ser somente um corpo bonito. Ser mulher é muito além disso. Podemos ser protagonistas de nossa própria vida, ter prazer em todos os sentidos. E ter uma vida mais saudável, plena”.

A psicóloga, que também é professora universitária, é mestre em Ciências do Cuidado em Saúde pela Universidade Federal Fluminense (UFF), pós-graduada em Psicossomática e Cuidados Transdisciplinares com o Corpo, pela UFF; especializada em Psicoterapia Corporal Reichiana e em Gestalt-terapia. Além disso, é especialista em Análise e Condução de Grupos pela Universidad de Barcelona e também em Psicologia Biodinâmica pelo IBPB (Instituto Brasileiro de Psicologia Biodinâmica).

MATURIDADE – “Eu acho que a grande sabedoria é aprender a respeitar os seus limites e saborear mais a vida. Quando você amadurece, você passa a saborear e a perceber mais. Muita gente ainda entra nessa questão de comparar envelhecimento com decrepitude. Isso é terrível. Eu tenho vários exemplos aqui no consultório que derrubam essa ideia. Por exemplo, uma senhora de 83 anos que buscou a terapia para trabalhar a questão da sexualidade dela e do marido. De continuar com o prazer. Acho que isso é muito importante a ser dito, porque a pessoa quando envelhece não perde a sexualidade dela. Ela transforma num outro ritmo. Pode não ser aquele tesão desenfreado, mas é a descoberta do corpo do outro que passa por algo muito mais sensorial, muito mais afetivo, muito mais amor, laços que se podem criar de formas muito mais profundas. A descoberta do prazer na maturidade é muito interessante porque é uma descoberta muito mais embasada, talvez porque essa pessoa possa olhar e fazer um retrospecto do que ela vivenciou e pode perceber que existem valores que se transformam ao longo do tempo, quais são esses valores desse momento e o que é realmente importante. Após os 50 a mulher quer manter uma vida saudável e plena em todos os sentidos.”

SÍNDROME DO PÂNICO – “Na questão profissional, há pessoas que são surpreendidas ao se desligarem de um trabalho por vontade própria ou não. Há quem se sinta negligenciada e até comece a ter síndrome do pânico com 50 anos. Ela pode sentir que está sendo descartada, que não serve para mais nada. Já tive alguns casos assim. O que fizemos foi mostrar que ela pode construir um outro percurso, que vai olhar os seus valores e poder redirecionar sua energia, seu potencial. Aos poucos retiramos a medicação e a terapia foi um trabalho muito bonito para ela se dar conta que a vida está aí, que tem uma série de talentos e que é útil.”

Anotar o que acontece no dia a dia, de bom ou ruim, é uma dica importante para a gente olhar com mais cuidado a própria vida: analisando o passado, vivendo o presente e projetando o futuro

REAVALIAÇÃO – “Acho que ao chegar aos 50, ou um pouco antes disso, já há uma reavaliação da vida. Eu por exemplo vou fazer 46 em janeiro e já reavalio a minha vida porque sou acelerada (risos). O importante é que a as mulheres vejam as fases pelas quais passaram e estão passando, as transformações e os desejos que a gente tem daquela fase. Com certeza o meu desejo de hoje não é o mesmo quando eu tinha 30 anos. Podemos pensar também nas grandes transições da adolescência para vida adulta, onde o adolescente vive uma carga de angústia enorme para a construção de identidade. Depois entra na vida adulta e ele tem essa carga de saber qual é a sua identidade profissional. Já a mulher aos 50 entra nesse momento e começar a pensar “o que eu estou fazendo nessa profissão? Daqui a pouco eu vou me aposentar e o que eu quero fazer da minha vida?” . É muito delicado se ela entrar numa discussão interna de que ela não serve para mais nada. Esse tipo de reação pode levar a uma depressão”.

SABEDORIA X VELOCIDADE – “Há vários estudos que mostram que precisamos olhar para nossos próprios valores, trabalhar nossos desejos, perceber que não precisamos exigir uma potência igual a de um jovem. Entender que a tua potência está na sabedoria e não na velocidade. A gente passa por problemas hormonais e sabemos que nosso corpo se modifica. Então, é hora para pensar que você não será aquela mulher com corpo de 20 anos, mas ela pode se cuidar para ter uma melhor qualidade de vida, fazer coisas prazerosas. Aproveitar essa fase.”

DEPENDÊNCIA – “ A gente percebe que muitos aposentados se tornaram, há alguns anos, arrimo de família. A verba proveniente da aposentadoria passou a dar suporte financeiro, a sustentar outros membros da família. Ou seja, no momento em que ela precisa daquele dinheiro para o próprio sustento, ela acaba ajudando os filhos que muitas vezes estão desempregados. Isso independe de classe social. Ou então, passam a cuidar dos netos, substituindo os pais. E não tem tempo para cuidar dela mesma. Passam a levar os netos ao futebol, balé, escola, cursos. Então, ela deixa de exercer o papel de avó.”

OUTROS PRAZERES – “Além do prazer ligado a sexualidade, há prazer em fazer coisas que estavam congeladas, esquecidas, ou ainda descobrir coisas novas. Tenho uma paciente que descobriu que tem uma belíssima voz e foi fazer aula de canto, formou um grupo e está feliz, cantando. O ideal é descobrir esses outros prazeres e resgatar isso: pode ser com trabalhos manuais, trabalhos sociais, grupos de leitura. Enfim, a gente tem que olhar para essa maturidade como uma idade viva, com capacidade de construir um caminho de felicidade.

Para Adriana, sempre é hora de fazer muita coisa: "É sempre tempo de criar, de viver, de descobrir, olhar com mais profundidade". Fotos de Ana Lúcia Araújo

Para Adriana, sempre é hora de fazer muita coisa: “É sempre tempo de criar, de viver, de descobrir, olhar com mais profundidade”. Fotos de Ana Lúcia Araújo

NÃO PERCEBER – “Muitas vezes, infelizmente, a mulher pode estar muito perdida por conta das mudanças hormonais, mudanças no corpo, de encarar essa etapa da vida. Isso mexe com a cabeça delas e pode não perceber essas oportunidades. Esta é uma fase em que se reavalia escolhas anteriores. Uma delas é avaliar a escolha de ter ou não filhos. Há mulheres que estão satisfeitas com suas opções, outras se sentem cobradas. O trabalho da psicoterapia é um dos caminhos para tentar resolver isso, mas não é o único. É um caminho muito interessante no sentido da mulher poder olhar e falar sobre isso, reconhecer que a sua história faz parte da sua construção enquanto sujeito, mas que você pode mudar essa história a qualquer momento. Essa é a grande diferença entre ficar preso ao passado e reconhecer o passado no presente. Entender que deve transformar esse presente em algo do qual você é protagonista. Entender a questão do arrependimento. O pior é se arrepender do não fez ou viveu e ficar sofrendo com isso. Não tem como voltar atrás, mas o que é importante é fazer uma revisão na própria história, Cuidar mais de si mesma”.

RESGATE DE SUA HISTÓRIA – “Você pode se acostumar a fazer essa revisão de sua própria vida. Por exemplo, eu já faço isso há anos, na minha rotina diária eu anoto na minha agenda três coisas boas que aconteceram comigo naquele dia. Depois, no final do ano eu vou ler e vejo quanto coisa bacana aconteceu comigo. Às vezes são coisas corriqueiras, mas prazerosas como tomar um picolé, caminhar na praia. Essa é uma forma de você fazer uma revisão e ver quanta coisa, às vezes, você deixa passar e não enxergar. Claro que isso é uma revisão em um nível. Quando você vai a um profissional, você vai fazer uma revisão de outro nível.”

COISAS RUINS – “É importante também anotar as coisas que não foram tão boas durante o dia. É importante fazer esse contraste e depois olhar para trás e ver como ultrapassou aquela dificuldade. Gosto de ver a força que eu tive para ultrapassar aquele momento. A gente pode ter dois papéis diferentes na vida: a de vítima, de olhar para trás e dizer “nossa, aconteceu isso na minha vida” e ficar me lamentando a vida toda ou dizer “caramba, eu passei por esse monte de coisas, mas olha só que força que eu tive”.

METAS – “Além da anotação na agenda, uma boa dica é fazer metas do que você quer para a sua vida. Assim, você direciona seus esforços para atingir essa meta. Ganhar na loteria é um sonho. É diferente. Meta é você dizer: ‘eu quero viajar para tal lugar, então vou guardar dinheiro para isso, vou economizar para chegar até esse objetivo.’ Temos que ter cuidado para não colocar uma meta impossível. Tem que ser metas possíveis, viáveis”.

HORA DE FAZER – “Sempre é hora de fazer muita coisa. Minha mãe de 75 anos é uma pessoa ativa, alegre, que mesmo diante de dificuldades de saúde está sempre pensando qual o próximo passo, pensando em se recuperar. Para ela, o próximo passo é não desistir. É sempre tempo de criar, de viver, de descobrir, olhar com mais profundidade.”

HORA DE ASSUMIR – “Muitas mulheres trocam de parceiros ou então buscam parceiras, se permitem amar uma outra mulher. Hoje a mulher está assumindo mais o seu prazer. Se a gente for pensar, há décadas a mulher não tinha voz, não podia ser dona do seu desejo. Muitas buscam a terapia porque foram casadas, tiveram filhos e se descobrem apaixonadas por uma outra mulher, querem trabalhar essas mudanças na terapia. Tenho amigas que tiveram uma vida em um casamento, com filhos e que agora estão felizes em outro relacionamento, dessa vez com uma parceira. Querem uma vida plena.”

Angelina Nunes

Angelina Nunes

Carioca, apaixonada pelo samba, ela tem pressa. Nasceu dentro de um trem da Central do Brasil, quando os pais tentavam chegar ao hospital na Tijuca. Está entre as jornalistas mais premiadas do Brasil, tendo conquistado Esso, Embratel, Vladimir Herzog, SIP, YPIS e Rey de España. Formada pela UFRJ, fez pós-graduação em Políticas Públicas no Iuperj e é mestre em Comunicação pela Uerj. Começou a trabalhar em 1980. Foi repórter e editora-assistente na Rádio MEC, TVE, TV Manchete, O Dia e O Globo. É professora na ESPM-RJ e integra o conselho da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), da qual foi presidente em 2008–2009. Adora viajar e inventar novas trilhas com a filha Bárbara e o parceiro Paulo. Gosta de dançar e cantar, de caminhar na praia ou no mato, de astrologia e tarot. Viciada em séries e em livros. Gosta de trabalhar em equipe e de fotografar. Não gosta de cozinhar, mas adora comer.

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