Para ser mais feliz

Entender porque fugimos do que precisamos fazer para viver melhor é o desafio das mulheres que procuram ajuda para realizar mudanças em suas vidas 

As histórias contadas na fala mansa e com sotaque pela francesa Marie Bendelac vão revelando aos poucos sua enorme capacidade de se colocar no lugar do outro. Não é para menos. Nos últimos oito anos, as pessoas passaram a ser a sua matéria prima. Hoje, Marie trabalha com Wellness Coaching, conhecida como ciência do bem-estar – um conjunto de técnicas criado para apoiar as pessoas no complexo trabalho de mudar aqueles hábitos e comportamentos prejudiciais que temos dificuldade de deixar. Noventa por cento de suas clientes são mulheres.

Sabe aquela dieta e a atividade física que você precisa fazer por recomendação médica, mas nunca consegue? Ou quando o trabalho sempre está à frente e suas prioridades vão ficando para trás, e isso acontece faz anos? Ou ainda o casamento mantido, mesmo sem sexo? Segundo a coaching, que cita várias pesquisas internacionais, 85% das pessoas não conseguem mudar os hábitos sozinhas, mesmo quando a questão é de vida ou morte. É aí que entra a ajuda profissional. “Para mim, é um processo de empoderamento. Você empodera a mulher a tomar conta das necessidades dela e ser mais feliz”, resume Marie.

As buscas de quem procura o método são diversas e bem pessoais – como lidar com a instabilidade emocional, superar um descontrole alimentar ou enfrentar questões relativas à sexualidade. Marie Bendelac também usa as técnicas da Comunicação não violenta e da Psicologia positiva. Depois de ter percebido por meio de um checkup a fragilidade de sua saúde devido ao estresse, buscou saídas que acabaram por leva-la à nova profissão. Ela explica que todo processo de mudança é complexo: envolve medos, crenças, emoções e esforço para aumentar o próprio nível de felicidade que, em última instância, depende mesmo da gente. Leia um pouco do que foi nossa conversa:

Marie Bendelac é especialista em Wellness Coaching / Foto: Ana Lúcia Araújo

 

Formação – “Tem vários níveis de formação em coaching: básica, outra para trabalhar com executivos. Um dos pré-requisitos é ter no mínimo dez anos como executivo, precisa ter essa experiência. Fiz todas essas formações aqui no Brasil e nos Estados Unidos, incluindo Harvard – sendo certificada em master –, para onde voltei recentemente para um novo curso. Queria trabalhar com relacionamentos, que me parecia fundamental; a questão da realização pessoal; e a questão da saúde. Três pilares. Descobri que existem técnicas comprovadas, com resultados comprovados para os seres humanos, que ajudam as pessoas a serem mais felizes. Não é achismo, mas, sim, ciência. Fiz 700 horas de formação. Existem vários tipos de coaching. Como é uma metodologia com resultado, muitas áreas podem usar. Entretanto, quero muito chamar atenção para o fato de que muitas pessoas oferecem coaching, mas não têm formação.”

Nível de felicidade – “Uma das minhas formações é de Psicologia positiva, a ciência da felicidade. Os pesquisadores estudaram o que faz o ser humano mais feliz. São pesquisas de mais de 50 anos que mostram que, ao longo dos anos, aumentou a renda, mas o nível de felicidade não tem correlação com o dinheiro. São vários os fatores para se sentir feliz: relacionamentos, ter um propósito na vida e ter atividades que te colocam num estado de “flow”, um estado em que você não vê o tempo passar, que você está absorvido porque gosta do que faz. Estuda-se também a quantidade de emoções positivas e emoções negativas que você vivencia no dia a dia. O mínimo para uma pessoa estar bem, florescer, estar saudável, é de uma emoção negativa para três positivas. Se você tem mais emoções negativas que positivas, acaba impactando na sua saúde e pode levar à depressão. Hoje, tem treinamento para aumentar o nível de felicidade. Um estudo demonstrou que 40% do nosso nível de felicidade está nas nossas mãos, depende das atividades que eu escolho fazer.”

Pequenas coisas – “Eu posso escolher fazer um diário de gratidão e escrever, antes de dormir ou de manhã, cinco coisas pelas quais eu sou grata. Eu poderia me encantar todo dia com os detalhes: sou grata por ter esse ambiente limpo, por ter conforto. A gente vive no dia a dia e não vê mais o que tem. É uma coisa boba, mas a gente começa a olhar as pequenas coisas que a gente tem e relativiza muito o que vivencia. Quando você olha, no fundo, tá tudo bem. Temos dificuldades, uma mãe doente, muitas dificuldades a nível pessoal, mas essas pequenas coisas me permitem ter a força para lidar com as dificuldades no dia a dia.”

Resultados –”Na primeira formação, já tive resultados excelentes. Minha cunhada foi minha primeira cliente. Foi funcionária a vida toda, tinha medo de empreender e hoje está ganhando um prêmio de empreendedorismo. Ela tem mais de 50 anos e hoje está grata por ter feito essa transição. Chegando aos 50, você muitas vezes termina uma carreira. Só que você tem outra vida pela frente, porque tem saúde, tem disposição, tem vitalidade. O coaching não diz o que você tem que fazer, ele ajuda você a encontrar o seu caminho. Você ajuda a pessoa a traçar estratégias viáveis pra ela. Ela vai saber, dentro da realidade dela, o que vai poder fazer ou não.”

Imunidade à mudança – “Pesquisadores de Harvard escreveram um livro e criaram um método que se chama Imunidade à mudança. Eles perceberam que as pessoas, apesar de saberem o que devem fazer, não conseguiam mudar. Dentre os pacientes com doenças cardiovasculares, que já enfartaram e correm risco de morrer se não mudarem a alimentação e fizerem exercícios, apenas 15% conseguem de fato fazer as mudanças. Por quê? É uma questão muito complexa, porque envolve crenças. Uma solução técnica, como prescrever uma dieta ou uma atividade, não funciona. Geralmente a pessoa já tentou várias dietas e viu que não conseguiu manter, simplesmente porque não era realista, mas isso gerou uma crença de que era impossível. Contam muito as emoções, a ansiedade e o estresse do dia a dia. Pode ser a dificuldade num relacionamento que faz você comer mais, o tédio ou pressão demais no trabalho. São coisas variadas na sua vida que podem interferir.”

Medos – “É preciso entender quais são os medos, o que tem por trás. Esse modelo de Harvard permite realmente decompor. Qual é o seu objetivo?  O que você está fazendo que te impede de chegar lá?  O objetivo é o pé no acelerador, mas você está com o pé no feio ao mesmo tempo. Eu sei que eu preciso fazer isso, mas estou comendo muito, não estou me exercitando, por exemplo… o que te impede, quais os medos que tem por trás? As pessoas têm que descobrir. Uma pessoa pode se manter num estado de doença porque acha que é a única forma de conseguir atenção, tudo isso no subconsciente. Quando ela descobre, se dá o poder de transformar, achar outra forma saudável de conseguir a atenção das pessoas. São pequenos exemplos, mas é muito complexo. Não tem receita.”

Sono – “A gente fala muito sobre alimentação e exercícios físicos, mas o sono é tudo. As pessoas hoje estão descuidando totalmente do sono. A gente tem cada vez mais coisas para fazer e está cortando o sono. Isso é um erro tremendo. A pessoa que não dorme o suficiente está entrando num ciclo vicioso, porque ela não vai ter energia para fazer atividade física, não vai conseguir se segurar diante de um doce, por exemplo. Cansada, você quer energia rápida. Então é cafeína, é cigarro, é açúcar, é gordura, é uma energia rápida. Só que isso gera picos e já foi mostrado por cientistas que isso pode gerar transtornos de humor e bipolaridade, por exemplo.”

Quem se ama, se cuida – “A gente trabalha muito a questão da autoaceitação. Isso é fundamental. Como é que a mulher vai continuar se amando e, às vezes, começar a se amar, como você ajuda a pessoa a se amar do jeito que ela é. A gente trabalha muito essa questão do amor, porque a saúde é uma questão de amor próprio. Quando você ama alguém, você cuida. Se você não se ama, normalmente você se descuida. Não estou dizendo que é fácil, mas é simples assim.”

Empatia – “A gente trabalha muito com comunicação não violenta, que permite cuidar e harmonizar as necessidades das pessoas. Se tem uma coisa pra mim que resume a comunicação não violenta em uma palavra é empatia, a compreensão respeitosa do que as pessoas estão vivendo e do que você está vivendo – a auto-empatia. A comunicação não violenta é uma ferramenta não somente a nível interpessoal, mas também intrapessoal e sistêmica. Muitas vezes a gente briga por questões bobas, quando a gente tem a mesma necessidade. Quando você entende as necessidades, você julga menos as pessoas. É menos julgamento e mais compreensão. Você ser capaz de olhar pra você e dizer nossa, eu estou triste agora. Do que eu preciso? Por trás de todo sentimento, tem necessidades que têm que ser atendidas. Não é o que o outro faz, mas é a minha necessidade no momento.”

Dizer não – “Terminamos um curso de comunicação não-violenta e uma das minhas clientes falou: vou dizer não para todos os meus clientes. Ela tem 50 e poucos anos, trabalha sem parar, é autônoma, e estava só preocupada em atender as necessidades dos clientes, da filha, disso, daquilo… ‘Eu vou viajar um mês, vou ver minha filha na França’. Isso é um resultado para nós, em termos de bem-estar, porque a gente perguntou a cada um o que levava do curso. Ela falou: qualidade de vida. Porque eu estou começando a me dar conta das minhas necessidades.”

Vulnerabilidades – “A comunicação não violenta tem quatro elementos fundamentais: focar em fatos, no lugar de julgamentos; conseguir identificar e expressar sentimentos – muitas pessoas têm dificuldade, a gente não aprendeu isso na escola, nem na vida; identificar e expressar as necessidades; e saber fazer o pedido. A gente tem a necessidade e quer que o outro adivinhe, às vezes nem a gente sabe o que quer. Saber expressar um pedido parece simples, mas não é tão fácil.  Eu preciso me responsabilizar por expressar pelo que eu estou passando. Preciso dizer minhas dores. Saber expressar um pouquinho da minha vulnerabilidade permite que o outro possa me compreender melhor. Com isso, a convivência se torna melhor. Se eu compreendo melhor o outro, posso ser mais tolerante.”

Talentos – “Como você ajuda a pessoa a gostar de si se ela não gostava? Você ajuda a pessoa a ver o que ela tem de bom, as forças, os talentos. Talento é uma coisa que você faz bem como você respira, então você não percebe. Você valoriza respirar? Não, é uma coisa natural. Então, os talentos, as pessoas também não valorizam. Quando você ajuda a pessoa a descobrir, a valorizar seus talentos, suas forças, ela se dá conta que tem coragem, que tem isso, tem aquilo. Começa a se valorizar. Eu me aceitar como eu sou, a gostar de mim. É com muita técnica, muita metodologia e muito amor. É o amor pelo ser humano, eu acho que faz muita diferença.”

Tempo – “A gente trabalha a questão do tempo e tem uma ferramenta que permite identificar 14 interferências comuns na gestão do tempo. Onde você gasta muito tempo? O que você gasta um minuto no planejamento, você ganha 10 minutos na execução. Quantas vezes as pessoas têm uma agenda pro trabalho e não têm uma pessoal, ou tem duas agendas e acabam olhando só uma das agendas, só o profissional. A gente ajuda a unir: você tem que ter uma agenda só, pra tudo, porque você é uma pessoa só, tem que saber, no seu dia, o que você precisa realmente, profissional e pessoal. E tem uma questão que as pessoas não colocam no planejamento delas que é considerar imprevistos. Tem que ter um tempo de 30% para imprevistos. Sempre vai ter uma pergunta que você não esperava, uma ligação que você não esperava, um e-mail que chega com um pedido que você também não esperava, interrompendo o seu trabalho, que te tira do foco. O planejamento precisa existir e considerar uma certa flexibilidade, ser realista. Obviamente, vai ter problemas. Esquecem de colocar um lugar pra comer, para dormir, para fazer uma atividade física.”

Sexualidade – “Tem a questão que eu gostaria de falar, que é a sexualidade. Eu tinha uma cliente que não fazia sexo há um ano com o marido. Ela trouxe essa questão para o coaching, imagina, você tem que sentir muita confiança para trazer, ela tinha vergonha de me falar. Começou a chorar. Você tem que receber com muita empatia pra pessoa poder se abrir. Ela se responsabilizou por isso, porque estava culpando o marido, que estava meio rude, e aí ela perdeu a vontade de fazer. Mas o que você pode fazer, então? No coaching, você traz o controle pra você. O que você pode fazer pra reacender? ‘Ah, acho que não fui ao salão há meses, à depilação, acho que estou usando muito pijama, tenho que dar um jeito nos meus pijamas’… Em uma semana, resolveu. E fizeram e foi ótimo. Ela era muito crítica, dizia que tinha sido muito bonita, mas não depois dos 50. Fiz ela ver como ainda era bonita, retomar aos poucos o marido.”

Mulheres – “Nossos clientes são 90% de mulheres. A questão de bem-estar é uma questão que atrai mais as mulheres. Trabalho com a faixa etária de 16 a 62. Tive uma cliente de mais de 50 anos que que acabou de concluir o processo agora. Ela está a cinco anos de se aposentar, é funcionária pública e estava totalmente deprimida, não conseguia mais ir ao trabalho. Era um fardo, difícil. ‘Eu quero vida, não quero esperar me aposentar para viver, quero isso agora, mas eu não tenho um propósito. O que eu vou fazer quando me aposentar?’. Em sete sessões, descobrimos o propósito dela: uma coisa linda, que era levar alegria para as pessoas através das flores. Você vai juntando o que a pessoa gosta, o que a pessoa tem habilidade. Ela tem habilidade com cores, com flores. Começou alegrando o ambiente de trabalho, o pessoal começou a comentar. Mudou o ambiente de trabalho. Então, uma coisa simples, não precisa ser um propósito de vida. Ela vai fazer curso de ikebana, está alegríssima, começando uma nova vida.  O quanto é importante pra você encontrar um caminho? Eu sempre pergunto.”

Marie é pós-graduada em Administração de empresas pelo Conservatoire National des Arts e Métier em Paris, França; certificada em Master Coaching pelo Behavioral Coaching Institute, executive Coaching e Positive Coaching pela Sociedade Brasileira de Coaching; e especializada em Wellness Coaching pela Wellcoaches Corporation, Massachussets, Estados Unidos. Sócia-diretora e co-fundadora da Be Coaching Brasil.

Claudia Lima

Claudia Lima

Começou a vida de repórter em 1988 no jornal “O Dia”, meses depois de formada pela UFRJ. Em 12 anos na empresa, aprendeu o ofício, ganhou experiência e prêmios de reportagens em equipe, como o Líbero Badaró 1998, com a série “Morte em nome da Lei”. Foi repórter sênior no “Jornal do Brasil” e escreveu para as revistas “Conjuntura Econômica” da FGV/RJ e da Petrobras. Desde 2002, atua na comunicação do serviço público. Primeiramente, na Secretaria de Fazenda da Prefeitura do Rio e hoje trabalha na Fiocruz. Em 2015, publicou o livro “O Inca Voluntário e suas histórias: a força da solidariedade”. Filha de pai mineiro e mãe alagoana, nasceu e vive na cidade do Rio de Janeiro, mas sempre foi mais de montanha que de praia. Não dispensa um bom papo, adora longas caminhadas e acha o bom humor fundamental para se viver.

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