Para além de um grupo de risco

O dia a dia de mulheres idosas que precisam adaptar suas rotinas diante da pandemia do novo coronavírus

Por Ana Tolentino, Bárbara Negrini, Bruna Lima, Letícia Rivoli Menegatti e Rogério Fontes

Sozinha em quarentena desde 16 de março, Zaira Henrique de Souza, de 77 anos, tenta adaptar-se à nova rotina. Para se manter ativa, ela caminha entre os 87 metros quadrados de seu apartamento e as ruas do seu condomínio na Vila Valqueire, Zona Norte do Rio de Janeiro. Enquanto isso, Ângela Mondaini, de 72 anos, perdia a conta de quantos bolos já tinha assado desde que se isolou em casa, no bairro do Méier, em 15 de março. Foi assim que percebeu a ansiedade do marido: “Ele estava comendo tudo”, contou. Do outro lado da ponte Rio-Niterói, em meados de abril, a enfermeira Cláudia Maria Toledo, de 60 anos, começou a sentir dor de cabeça, febre baixa e dor atrás dos olhos. Eram os mesmos sintomas de covid-19 que vinha observando em seus pacientes no Hospital dos Servidores, e por isso ela concluiu: precisaria ser internada também.

Zaira mora em Vila Valaqueire, no Rio, e considera os afazeres domésticos uma distração durante a pandemia. Foto: Eliana Souza de Barros

Os idosos são, muitas vezes, tratados apenas como um dos principais grupos de risco frente ao novo coronavírus. Porém, ao contrário do que muitos pensam, a pandemia os atinge de muitas outras formas. Eles são uma parte da população ativa, com necessidades e desejos próprios. Abrir mão de suas rotinas e atividades têm um impacto direto na saúde mental de cada um deles. Para Luciana Gemal, psicóloga que trabalha com idosos, a família vem se impondo sem procurar entender como eles estão se sentindo. “Às vezes é preciso ter aquele diálogo igual a gente faz com adolescente: “e aí pai o que está acontecendo com a sua cabeça em relação a esse momento? Qual é a sua visão?”, porque talvez entendendo como ele está nessa situação é que fica mais fácil de implicar uma responsabilidade diante do isolamento social”, explica.

“Eu me sinto triste né? Vendo aquelas mães chorando na televisão… Eu me ponho no lugar da pessoa”

Zaira Henrique de Souza, sobre o noticiário da TV

“Eu moro sozinha, então cozinho para mim, lavo minha roupa e me distraio. É ruim porque estou afastada das minhas atividades, pilates, academia, psicóloga… Ela está fazendo ‘live‘ mas não é a mesma coisa, né?”, diz Zaira.

Desde que seu marido morreu, há 5 anos, Zaira tenta manter a mente ocupada para lidar com o luto. Ela foi casada por 55 anos e desde então começou a enfrentar uma depressão severa, até conhecer sua terapeuta e iniciar o tratamento. “Não estou me sentindo assim tão mal porque faço psicóloga duas vezes. Ela trabalha com a memória, matemática, português e envia essas tarefas para a gente”, diz Zaira, que faz consultas toda segunda e quinta-feira há três anos.

Entre as atividades que têm ocupado a quarentena de Zaira, a televisão é uma das mais frequentes. Isso nem sempre é bom para a sua condição emocional. “Eu me sinto triste né? Vendo aquelas mães chorando na televisão… Eu me ponho no lugar da pessoa. Por isso eu até não vejo todos os jornais, eu vejo só um e está bom. Só tem tristeza”.

Estar nesse papel de mãe e idosa, em meio a esse período de quarentena pode ser algo difícil e doloroso. São tantas coisas para se proteger que o convívio se acaba e de repente tudo muda. Para a psicóloga de Zaira, Luciana Gemal, as famílias têm um papel fundamental no processo de envelhecimento e ajudam nessa reestruturação de costumes. “Esse idoso vive a vida dele, com os hábitos dele, e de repente acaba tendo uma inversão de papéis”, explica.

E é nesse sentido que Eliana Souza de Barros, filha de Zaira, de 59 anos, está sendo indispensável. Além de auxiliar nas compras da casa por morar no apartamento ao lado, ela ainda está presente no dia a dia da mãe, acompanhando-a em suas caminhadas pelo condomínio. “Minha filha me proibiu de sair porque além dessa situação eu tenho labirintite, daquelas brabas, que dá crise. Então eu estava caindo muito, me machucando muito. Aí é ela quem está fazendo as compras para mim”, conta.

Mesmo conseguindo se readaptar, Zaira sente que esse novo cotidiano permanecerá assim por muito mais tempo e isso a afeta: “Fico muito triste, né? Porque eu tenho a impressão de que não vai acabar nunca”.

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