Especial PapoMulher50+
Miriam, a contadora de histórias

Aconchego. A palavra vem naturalmente quando a jornalista e escritora Miriam Leitão fala sobre o que é necessário no processo de criação de um livro infantil. Ela gesticula, ri e fala pelos cotovelos. Com os olhos brilhando, lembra a infância e a menina tímida que preferia mergulhar nos livros e viajar nas histórias que lia. De jeans e a cara lavada, a avó de quatro netos (Mariana, Daniel, Manuela e Isabel) não esconde a corujice ao falar dos pequenos que são seus primeiros leitores. É para eles que ela conta as histórias que inventa, assim como as histórias que criava para os irmãos mais novos.

Miriam Leitão com Angelina Nunes, durante a entrevista. Foto: Ana Lúcia Araújo

O tal aconchego a que ela se refere são os cantinhos criados para ajudar na inspiração para tecer as frases que vão povoar os livros. Não pode ser no “ambiente nervoso da mesa do jornalista, que trabalha no meio do barulho”. Não pode ser no escritório onde a conversa para o PapoMulher50+ se desenrolou: um anexo de sua casa na Gávea, onde a sala tem as paredes cobertas de estantes cheias de livros sérios, livros de adulto.

O seu processo de criação requer espaços como os das pequenas mesas colocadas estrategicamente em cantos da sala, da varanda ou ainda no sofá na fazenda, em Minas Gerais, onde ela plantou milhares de mudas e recuperou a Mata Atlântica. Pode ser num dia de sol ou de chuva. O insight para criar pode vir de uma observação de um ninho que caiu da árvore, de uma briga entre passarinhos ou de uma conversa noturna com a neta. O certo é que, ela admite, o livro é quem decide a hora de escrever e não o contrário.

Falar sobre livros infantis é um dos seus assuntos preferidos. “Eu nunca pensei na literatura infantil, a não ser quando os netos chegaram”, conta Miriam que, aos 63 anos, tem sonhos a realizar. O principal é continuar escrevendo, contando histórias para crianças. Até o momento ela já lançou “A perigosa vida dos passarinhos pequenos”, “A menina de nome enfeitado”, “Flávia e o bolo de chocolate” e o “Estranho caso do sono perdido”. Ela confessa que sente um frio na barriga a cada livro porque “escrever para criança dá um medo danado”.

Miriam e seus quatro livros infantis. Foto: Ana Lúcia Araújo

Ela é a sexta filha de um total de 12 e conta que seus irmãos mais velhos contavam histórias para ela, que também repetia a rotina com os irmãos que vieram depois dela. “Essa tradição de contação de história sempre foi muito presente. Para você ter uma ideia, um irmão mais novo teve caxumba e eu ouvi dizer que, se ele não ficasse quieto, ele não poderia ter filhos. Aí eu fui contando um monte de história para ele, uma atrás da outra para ele ficar quieto. Até hoje ele ri disso. Ele tem três filhos maravilhosos.”

Mergulhada no mundo dos livros desde pequena, ela lembra que a estante da casa dos pais era o seu paraíso, onde poderia se refugiar e sonhar. E, através dos livros infantis que escreveu, Miriam reencontrou a criança tímida que foi. E é pelos livros que ela quer fazer a transformação, quer passar uma mensagem, quer ampliar seu trabalho, quer sentar no chão, na cadeira em uma sala de aula, em livrarias, hospitais, em qualquer lugar onde o seu público infantil se encontre.

A entrevista com a jornalista e escritora inaugura a série em vídeo PapoMulher50+. Nesta reportagem você vai ler alguns tópicos que foram abordados. O vídeo completo está AQUI, onde Miriam fala descontraidamente sobre a arte de escrever:

“Na minha casa tinha uma estante cheia de livros infantis. Era o meu paraíso”. Foto: Ana Lúcia Araújo

 

CONTOS TRADICIONAIS – “Eu inventava histórias porque, depois que eu fiquei adulta, me incomodava as histórias tradicionais com suas mensagens subliminares com mulheres muito passivas. Eu nunca gostei da Cinderela, por exemplo, e das outras. Eu tenho dificuldade de contar história de uma mulher que ficou parada cem anos e ai chegou um homem, deu um beijo e tudo se resolveu. Eu sou incapaz de contar essa história. Então eu inventava histórias de aventura, de meninos que iam para mata, passavam por situações de perigo.”

TIMIDEZ – “Eu sou fruto das histórias infantis até porque eu era muito tímida. Eu tinha muita dificuldade de iniciar uma conversa, uma brincadeira. O mundo em que eu me sentia confortável era o mundo dos livros. Na minha casa tinha muitos livros, o que não era comum naquele tempo no interior de Minas. O meu pai é um homem que se fez pelos livros. Ele sai da extrema pobreza nordestina e, pelos livros, ele vai construindo a sua carreira. Na minha casa tinha uma estante cheia de livros infantis. Era o meu paraíso. Eu sentava do lado daquela estante e viajava.”

SONHO – “Meu sonho mais antigo era de ser escritora. Não era nem o jornalismo. O jornalismo veio naturalmente porque eu era tão ligada na notícia à minha volta, eu prestava atenção no noticiário do rádio e naturalmente eu me caminhei para o jornalismo. Mas na primeira vez que eu falei “o que eu quero ser quando crescer” foi numa redação feita para o colégio. Antes eu não tinha coragem de escrever porque eu achava que o sonho era muito pretensioso. Então eu escrevi que queria ser escritora. Eu queria ser escritora de alguma coisa. Eu nunca pensei na literatura infantil, a não ser quando os netos chegaram.”

Miriam com os quatro netos. Foto: Sergio Abranches

SER AVÓ – “Ser mãe é lindo, maravilhoso, mas a gente está tão acelerada, tem que educar, tomar conta, pensar na carreira, a gente está correndo atrás de muita coisa. Quando você é avó, a maturidade já chegou. Esse amor profundo pelos netos. É um desabrochar. Você chega nos netos de outra forma. E contando história que os netos eu reencontrei a criança que viveu entre livros. Quando virei avó, aquela menina tímida que devorava livros voltou.”

FANTASIA E REALIDADE – “Nos livros, eu pego um pedaço da realidade e bordo com a fantasia. Talvez, por ser jornalista, eu preciso de um pedaço de realidade. O primeiro livro, “A perigosa vida dos passarinhos pequenos” , surge de uma observação. Lá no sítio eu vi o bem-te-vi expulsar um gavião com a ajuda de outros passarinhos. A inspiração veio daí. Eu quero divertir a criança, eu não quero chatear a criança. Eu quero contar histórias. Outro dia alguém perguntou para minha neta “Qual é a história que você mais gosta de sua avó?” E ela disse: “a próxima”. O Sérgio (Abranches) é um ótimo contador de história e ele inventa várias histórias, mas eles ficam bravos (os netos) porque ele não anota, não transforma em livro, então ela se perde. Outro dia, ele contou uma história incrível e depois ele esqueceu, né? E aí os netos, em outra ocasião, contaram pra ele a mesma história e pediram pra que ele anotar, para ele não esquecer da próxima vez que fosse contar.”

MATURIDADE – “Acho ruim quando se fala da velhice como uma velhice que desiste, que abandona os sonhos. Eu falo da velhice que realiza. Se me perguntarem, você quer ficar na televisão a vida inteira? Não. Você quer estar no rádio a vida toda? Não. Eu quero escrever. Até o dia final. Eu quero escrever livros. Eu vim ao mundo para isso.”

Assista a entrevista completa aqui:

Angelina Nunes

Angelina Nunes

Carioca, apaixonada pelo samba, ela tem pressa. Nasceu dentro de um trem da Central do Brasil, quando os pais tentavam chegar ao hospital na Tijuca. Está entre as jornalistas mais premiadas do Brasil, tendo conquistado Esso, Embratel, Vladimir Herzog, SIP, YPIS e Rey de España. Formada pela UFRJ, fez pós-graduação em Políticas Públicas no Iuperj e é mestre em Comunicação pela Uerj. Começou a trabalhar em 1980. Foi repórter e editora-assistente na Rádio MEC, TVE, TV Manchete, O Dia e O Globo. É professora na ESPM-RJ e integra o conselho da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), da qual foi presidente em 2008–2009. Adora viajar e inventar novas trilhas com a filha Bárbara e o parceiro Paulo. Gosta de dançar e cantar, de caminhar na praia ou no mato, de astrologia e tarot. Viciada em séries e em livros. Gosta de trabalhar em equipe e de fotografar. Não gosta de cozinhar, mas adora comer.

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