O útil ao agradável

Celina: “Cheguei aos 60 com o mesmo corpo e peso dos 20, mero efeito colateral do tipo de vida que escolhi”. / Fotos: Ana Lúcia Araújo

Eu tinha 24 anos quando entrei para a reportagem geral do Jornal do Brasil, em 1980, naquele imenso prédio hoje ocupado pelo INTO. Era uma jovem deslumbrada com o jornalismo, feliz por me tornar parte daquele que considerava o melhor veículo de Comunicação do país. Me casei pela primeira vez nesse mesmo ano, quando adotei o hábito de correr no mínimo oito quilômetros na Estrada das Paineiras. Para isso, acordava cedíssimo e terminava o exercício com um banho de ducha gelada. Era difícil encontrar alguém mais bem humorado que eu naquela redação. Claro que destoava de meus colegas e dos jornalistas em geral, boêmios por natureza.

Esse ritmo, na realidade, começou a partir dos seis anos, quando fui morar em Itaipava, na serra fluminense, e estudei no coleginho de uma amiga de minha mãe, em Correas. Eram intermináveis as brincadeiras dos mais variados tipos de pique que me ajudaram a desenvolver uma capacidade cardiorespiratória um tanto fora da curva, ao contrário das crianças de hoje que vivem grudadas aos computadores e celulares. Voltei ao Rio com 9 anos e aos 13 me matriculava numa academia de ginástica. O bicho carpinteiro já me pinicava…

Fotos e vídeo: Ana Lúcia Araújo

O auge do namoro com meu ex-marido foi o período em que alugávamos uma casinha em Visconde de Mauá, onde o programa era passar o dia andando naquela privilegiada natureza e tomando banho nos rios de água cristalina.  Outra paixão passou a ser o Parque Nacional de Itatiaia, reserva onde se encontra uma infinidade de espécies hoje raras na Mantiqueira, como uma grande fartura e palmitos e xaxins, isso sem falar na exagerada oferta de águas ainda preservadas da poluição.

Me viciei em endorfina e comecei a perceber que qualquer programa, para mim, tinha de começar pela atividade física na natureza. Quando fiquei grávida de minha primeira filha, corri nas Paineiras (e trabalhei) até a véspera do parto. Com a segunda, parei um mês antes, embora tivesse feito ginástica até o final. Fiz meia-maratona, corrida da ponte, Petrópolis-Pedro do Rio, maratona, enfim, entrei de cabeça no nascente movimento de corridas de rua que começava a bombar nos anos 80. Na maratona, que cobri para o JB, consegui passar meu horário de entrar das 8h para as 9h, para treinar antes de trabalhar. Aliás, nunca usei a palavra treino, para mim era tudo uma curtição.

Depois da separação me submeti a uma terapia experimental para fazer uma reportagem para o JB com Anna Sharp, uma espécie de “cura pela caminhada”, e foi então que consegui trocar a corrida pela caminhada, ainda bem, porque estava secando de tanto correr. Em vez de me afogar nas mesas de bar, foi correndo que curei as feridas da separação. Pouco depois surgiu o desafio: fazer o Caminho de Santiago, sozinha. Isso foi em 1992 e saí de lá com um troféu: a paixão por um alemão, maravilhosa nos dois anos que durou. Anos depois, caminhando com um ex-colega do coleginho, recebi outro convite de casamento, há 22 anos. Ou seja, os três homens mais importantes da minha vida de alguma forma têm a ver com exercício.

Depois vieram a Trilha Inca, com suas magníficas montanhas, o Caminho Português – versão que corresponde a um quarto do chamado Caminho de Santiago, ou Caminho Francês -, os Passos de Anchieta e o Caminho da Fé, esses últimos no Brasil. Sozinha ou acompanhada, virei adepta das longas caminhadas. Constatei ainda que viagens internacionais com grandes atrativos gastronômicos não interferem na balança quando se cria uma rotina de exercícios, o que só fez aumentar meu prazer.

Nos últimos anos ensaiei uma volta à corrida, não mais do que seis quilômetros, por conta da musculação que comecei a fazer aos 52 anos. Adoro, é endorfina na veia e ainda turbina o humor. Depois de um certo tempo cai tudo, não tem jeito, só mesmo um trabalho muscular para segurar a onda. O melhor foi que além da saúde e bem estar, ganhei confiança para correr com menos chances de sofrer lesões, problema do qual sempre consegui escapar.

O fato é que cheguei aos 60 com o mesmo corpo e peso dos 20, mero efeito colateral do tipo de vida que escolhi. Tudo isso e mais alguma coisa está no livro O útil ao agradável, histórias de amor, humor e boa forma, que lanço na quinta-feira 19 de outubro, a partir das 19h, na Travessa de Ipanema. Conto com vocês lá!

 

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Celina Côrtes, carioca de 1956, é jornalista e passou pelo Jornal do Brasil, O Globo, O Dia e TV Bandeirantes. Em 2010 lançou Ilha da Trindade, veo de mysteriosob a flor d’água (Editora Andaluza); em 2011, Procura-se um milagre (Editora Nova Era) e em 2017, O útil ao agradável, histórias de amor, humor e boa forma (Editora Chiado).

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