O que maltrata o coração das mulheres?

Infarto mata uma mulher no país a cada 15 minutos. Risco aumenta após 55 anos e prevenção é fundamental

cada 15 minutos, morre no Brasil uma mulher de infarto agudo do miocárdio. São cerca de 35 mil por ano. No caso do AVC (acidente vascular cerebral), há praticamente uma morte de mulher a cada dez minutos. E o que é pior. Nas últimas décadas, proporcionalmente, o número de óbitos por infarto em mulheres tem crescido. Em 1979, elas respondiam por 35% desses óbitos. Hoje, são 41,3%.

“O histórico familiar é um importante fator de risco para doenças coronarianas, mas o estilo de vida é decisivo. Além do mais, o histórico não se pode mudar e os hábitos de vida, sim”, diz a doutora Viviane Belidio, do Instituto Nacional de Cardiologia (INC) e intensivista do Hospital Samaritano, no Rio de Janeiro, lembrando que, após a menopausa, a mulher fica mais sujeita a fatores de risco para doenças coronarianas, como mudanças no metabolismo, hipertensão, aumento do colesterol e de triglicerídeos.

Mas, afinal, o que maltrata o coração das mulheres? Os vilões são muitos. No auge da sua vida reprodutiva, a mulher conta com a proteção natural do hormônio estrogênio. Ele dificulta a obstrução das artérias por placas de gordura e ainda produz um efeito dilatador sobre a musculatura dos vasos. Essa proteção cai por terra quando vem a menopausa.

Viviane Belidio, do Instituto Nacional de Cardiologia: menopausa elimina proteção natural gerada pelo estrogênio. Com isso, aumenta o risco de obstrução das artérias. Foto: Cristina Alves

Viviane Belidio, do Instituto Nacional de Cardiologia: menopausa elimina proteção natural gerada pelo estrogênio. Com isso, aumenta o risco de obstrução das artérias. Foto: Cristina Alves

“As doenças cardíacas e isquêmicas que envolvem o entupimento de vasos passa a acometer mais a mulher a partir dos 55 anos. Isso acontece por causa da queda do nível de estrogênio na mulher. O homem está mais propenso a infartar já a partir dos 40 anos de idade”, explica Bruno Hellmuth, cardiologista em atividade há mais de 40 anos e que desenvolveu o setor de Cardiologia da Casa de Saúde São José, no Rio de Janeiro. “Culturalmente, havia uma visão de que as mulheres não infartavam. A matriarca cuidava da família e não podia adoecer. Isso mudou”, atesta a doutora Viviane Belidio, do Instituto Nacional de Cardiologia.

Ela lembra que as doenças cardiovasculares são a maior causa de mortes no Brasil, com quase um terço do total de óbitos. De acordo com os dados do DataSUS (Sistema Único de Saúde), as doenças do aparelho circulatório (que incluem insuficiência cardíaca, derrames e infartos) vitimaram 339.672 pessoas em 2013, somando 28% dos óbitos. A seguir, vêm as neoplasias (câncer), com 16,2%, e as mortes por fatores externos (violência, sobretudo), que vêm crescendo, e já chegam a 12,5%.

A doutora Viviane diz que, no caso das mulheres, o pico dos infartos acontece entre os 60 e os 69 anos, cerca de dez anos após a menopausa. Ela destaca que, apesar dos efeitos protetores do estrogênio, a Terapia de Reposição Hormonal não é mais recomendada com o objetivo de reduzir a incidência de doenças cardiovasculares.

E por a mulher ficou mais exposta aos riscos do coração? A partir do momento em que ela ingressou de forma maciça no mercado de trabalho e passou a incorporar à sua rotina o estresse profissional, os hábitos de má alimentação e o tabagismo, ficou mais exposta aos riscos do coração, diz doutor Bruno Hellmuth. Ele alerta para que as mulheres procurem orientação médica em caso de sofrerem mal-estar com dor no peito ou mesmo um cansaço maior diante de algum esforço físico. Pode ser um sinal de angina. Ele adverte que, às vezes, os sintomas enganam:

“Na minha experiência, uma senhora com vários atendimentos com crise de asma, que se tratava com um pneumologista e chegou aqui na emergência, tinha o eletrocardiograma normal. Após uma dessas crises, constatamos elevação das enzimas. Foi feito o cateterismo e ela tinha várias obstruções. Colocou stents e nunca mais teve asma”, relata ele, acrescentando que as doenças do coração estão relacionadas a fatores de risco como o diabetes, o tabagismo, o colesterol elevado e a hipertensão arterial.

O médico Bruno Hellmuth na Casa de Saúde São José. / Foto: Cristina Alves

O médico Bruno Hellmuth: pressão alta também tem maior incidência após a menopausa. / Foto: Cristina Alves

A pressão alta _ que também aumenta o risco do AVC (acidente vascular cerebral) _ também passa acometer mais as mulheres após a menopausa, diz doutor Bruno Hellmuth. Hoje, segundo padrões internacionais, para ser considerada normal, a pressão deve ficar no limite de 14×9. Outros, no entanto, já apontam que esse número caracteriza pressão alta. Com a queda dos níveis de estrogênio (sempre ele), muda o metabolismo, o colesterol ruim (LDL) tende a subir, a mulher pode engordar, ganhar gordura abdominal e a pressão sobe. Para combater esses efeitos negativos, a receita é: fazer atividade física regular, controlar o peso, não fumar e cuidar da alimentação.

“A doença básica é a aterosclerose, que consiste na formação de placas com alto teor de gorduras nas parede das artérias, levando a obstruções. Ela pode ocorrer em qualquer lugar do corpo, mas quando acomete as artérias coronárias, pode até matar. Quando obstrui os vasos que levam o sangue à cabeça, provoca o AVC. Se nas pernas, pode resultar em amputações”, diz doutor Bruno Hellmuth.

arteria

“As placas de gordura crescem por disfunção das células que revestem as artérias por dentro, o chamado endotélio. As células do endotélio produzem substâncias que levam à vasodilatação ou à vasoconstrição. O cigarro, por exemplo, leva a um aumento da doença coronariana porque várias substâncias que a gente inala causam disfunção nas células endoteliais”, explica o cardiologista da São José.

E por que o diabetes também é um fator de risco? Porque para a glicose passar da circulação para o interior das células é preciso a produção de insulina. Se a pessoa é diabética, vai precisar de mais insulina para desempenhar esse papel. Com menos glicose, a célula sofre uma disfunção e favorece a passagem do colesterol e a formação de placas.

VOCÊ CONHECE OS SINTOMAS?

Os sintomas clássicos do infarto são dor forte no meio do peito, podendo irradiar para o braço esquerdo, principalmente. Podem ocorrer também náuseas, vômitos e sudorese fria, explica a doutora Viviane Belidio. No entanto, no caso das mulheres, o infarto pode vir acompanhado de outros sintomas mais leves e que podem ser confundidos com crise de ansiedade, como mal-estar, falta de ar, dor nas costas e dor abdominal de leve intensidade. A recomendação é clara: procure ajuda imediatamente.

SABE COMO PROTEGER SEU CORAÇÃO?

As recomendações mais recentes dos especialistas sobre como prevenir de doenças cardiovasculares:

  1. Controle seu peso (mantenha o índice de massa corporal < 25)
  2. Corte o cigarro
  3. Mexa-se. Faça 150 minutos por semana de atividades aeróbicas moderadas ou 75 minutos por semana de atividades vigorosas (pelo menos 10 minutos cada sessão, divididas ao longo da semana)
  4. Adote uma dieta rica em frutas, vegetais e grãos integrais. Dê preferência a laticínios desnatados, carnes brancas (aves e peixes), consuma frutos oleaginosos (castanhas, nozes, amêndoas).
  5. Evite carnes vermelhas, refrigerantes, açúcar e sal.
  6. Consuma álcool com moderação (dose diária recomendada de 120 ml vinho ou uma latinha de 350 ml cerveja)
Cristina Alves

Cristina Alves

Tem um gostinho especial por trabalhar em equipe. Carioca, criada no Méier, subúrbio do Rio, tem experiência de mais de 25 anos de jornalismo diário. Participou da cobertura e/ou edição de todos os planos de estabilização do Brasil pós-redemocratização. Sua relação com o jornalismo econômico começou quando era “foca” no “Jornal do Commercio” e ainda cursava a Escola de Comunicação da UFRJ, onde se graduou. Fez especialização em Políticas Públicas na UFRJ e tem MBA de Petróleo e Gás pela Coppe-UFRJ. Trabalhou ainda no “Jornal do Brasil” e em “O Globo”, onde foi editora de Economia entre 2007 e 2014, depois de atuar como repórter e subeditora. Cobriu por diversas vezes o Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça. Desenvolveu diversos produtos editoriais para plataformas impressa e digital. Hoje, é sócia da empresa Nau Comunicação. Casada, é mãe de João e Antônio. Adora mergulhar num bom livro.

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