Claudia decidiu chegar à cidade de Santiago de Compostela, na Galícia, caminhando pelos 800 quilômetros do Caminho Francês, também chamado de Caminho das Estrelas.

Num caminho novo, sem limites

O susto de completar 50 anos foi o impulso para a aventura de fazer a peregrinação no Caminho de Santiago 

No dia em que decidi seguir o Caminho de Santiago de Compostela, algo incerto me movia. Faltavam apenas alguns meses para completar 50 anos e só percebi de repente. Como cheguei aqui tão rápido? Senti uma urgência acumulada de meio século — o que passou e o que não terei pela frente. E resolvi fazer de uma vez tudo o que tinha vontade, mas sempre deixava pra depois.

Sentia pressa, muita pressa. Como caminhar e viajar são duas paixões pouco exercidas, amadureci a ideia de fazer a mais famosa rota de peregrinação cristã da Europa. Para chegar à cidade de Santiago de Compostela, na região espanhola da Galícia, escolhi os 800 quilômetros do Caminho Francês, também chamado de Caminho das Estrelas. Diziam que, à noite, a Via Láctea guiava os peregrinos até o lugar onde estava o túmulo do apóstolo São Tiago Maior, hoje guardado na Catedral da cidade.

Decidi ir sozinha. Daí vieram as dúvidas. Deveria andar em média 25 quilômetros por dia, carregando uma mochila pesada, vivendo com três mudas de roupa e seguindo mapas. Não falo inglês, não falo espanhol. Seria a primeira viagem internacional sozinha. Enquanto me preparava para a aventura, me convencia com os argumentos que inventava para os amigos incrédulos. No fim de agosto de 2015, parti, deixando a zona de conforto para trás.

A anti-rotina

Em uma estrada vazia – fotos: Arquivo pessoal

Comecei a caminhada em Saint-Jean-Pied-de Port. E foi como tirar o chão de debaixo dos pés, enquanto caminhava. Comecei, literalmente, sobre nuvens e pedras, subindo os Montes Pirineus, na travessia entre a França e a Espanha. Vários dias de muito calor e sol, outros de frio, alguns de vento intenso, poucos de chuva e um único com arco-íris depois da tempestade.

Minha rotina se transformou. Toda a casa está na mochila, vira parte do corpo. As mãos se multiplicam em funções para carregar cajados, tirar fotos, alcançar frutas nas árvores. Quando chove, a capa te protege da água que cai, mas te faz encharcar as roupas de suor. No começo, me chateava com o excesso de autoestradas e peregrinos. Aos poucos, aprendi a aceitar o que viesse pela frente e o que ficava para trás.

Há muito o que fazer, todo o tempo. Ajeitar o lenço para proteger o pescoço do frio, a touca para tapar ouvidos e cabelos, mudar para o chapéu de abas quando faz sol. É um tira-e-põe casaco com a variação da temperatura, paradas e paradas para encher as garrafas d’água na fonte mais próxima, tomar café e tirar as botas. Preciso me alongar, comer, ir ao banheiro.

 Emoções

Longe de casa, me vi distante também de todas as construções aparentemente tão sólidas que me cercam no dia a dia — a língua, a comida, a paisagem, as pessoas. Nada se repete além da determinação de seguir, seguir, apenas seguir, porque não temos muito tempo e precisamos chegar. Estranhava meu corpo e as dores do esforço nunca feito. No limite do esforço físico, afloram as emoções.

No Alto de San Roque, a 1.270 m de altura, com a estátua em homenagem ao peregrino

Ruínas romanas e construções seculares se espalham pelos vilarejos. As igrejas, com seus altares de ouro e beleza, paralisam e comovem. Somos ali tão pequenos… os olhos demoram a se acostumar com a umidade escura e o silêncio desses templos. Sensações intensas me levavam a um estranho caminho dentro de mim, para um tempo incerto que me habita. Quase invariavelmente, chorava.

Não há solidão nas estradas, onde a solidariedade é a regra. Cumprimentamos os desconhecidos que nos acompanham em ritmos diferentes — passo por um, fico para trás, nos reencontramos numa cafeteria ou albergue três cidades depois. Dividimos banheiros e beliches, nem sempre falamos a mesma língua. Muitos desaparecem, alguns se tornam companheiros de viagem. Outros, amigos inesquecíveis.

Por quê?

A pergunta recorrente durante as conversas com os companheiros de viagem: por que você está fazendo o Caminho? Encontrei um homem português, contador perto dos 40 anos, que deixou sua carreira e mudou de cidade para trabalhar com terapias alternativas; um casal que fazia o mesmo percurso do filho que morreu jovem, usando seu diário de viagem; e três irmãs, enfermeiras dinamarquesas com idades entre 55 e 72, que rezavam a cada parada de descanso.

Encontrei ainda um militar espanhol, recentemente aposentado. Nascido na Galícia, me disse que um dia decidiu juntar-se aos peregrinos que via passar às centenas por identificar algo em comum entre eles: um certo brilho nos olhos. Chamava-os de buscadores de luz e tornou-se um deles — repete a mesma rota no fim do verão, há 21 anos. As respostas vêm em forma de histórias pessoais, nem sempre claras para quem caminha.

Olhos abertos

Logo que chego no povoado onde decido ficar, se encontro pouso, me preocupo em tomar banho, lavar a roupa para secar a tempo de voltar a usar no dia seguinte, providenciar o que comer à noite e mais alguma coisa para levar na mochila. Corro para conhecer a cidade, tiro fotos e, quando me dou conta, já está na hora de me deitar — as portas se fecham e as luzes se apagam às dez da noite, é preciso dormir.

Quase não paro para refletir. Me preocupo apenas em andar, carimbar a credencial que me permite pousar nos albergues, comer quando tenho fome, me lembrar de beber água o suficiente, verificar qualquer mínima dor nos pés para que não se formem bolhas. Penso se vou aguentar até a próxima cidade, no calor forte ou no frio com vento. E é nessa banalidade de viver que me descubro, mais tarde, em profunda transformação.

O percurso parece não ter fim quando o atravessamos com os olhos abertos para o novo. Porque tudo é diferente a cada passo, vivemos com a intensidade merecida tudo o que é único: todos os gestos, palavras, lugares e dores. Um amigo de andanças disse que chegar a Santiago de Compostela, depois de 31 dias de caminhada, me fez descobrir que não há limites para mim, nem para os meus pés. Concordei. E descobri que chegar aos 50 é essa urgência de viver assim, fazendo de todo caminho um caminho novo, sem volta e sem fim.

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Claudia já ao fim de sua peregrinação, em frente à Catedral de Santiago de Compostela.

Os jornalistas Claudia Lima e Hélio Araújo vão falar sobre suas aventuras até Santiago de Compostela nos dois caminhos, o Português e o Francês.

O bate-papo acontece nesta terça-feira, 26/07, às 18h30, no Instituto Cervantes (Rua Visconde de Ouro Preto, 62, Botafogo, Rio de Janeiro).

A entrada é gratuita e para participar basta se inscrever pelo e-mail jornalistasnocaminhodesantiago@gmail.com.

Claudia Lima

Claudia Lima

Começou a vida de repórter em 1988 no jornal “O Dia”, meses depois de formada pela UFRJ. Em 12 anos na empresa, aprendeu o ofício, ganhou experiência e prêmios de reportagens em equipe, como o Líbero Badaró 1998, com a série “Morte em nome da Lei”. Foi repórter sênior no “Jornal do Brasil” e escreveu para as revistas “Conjuntura Econômica” da FGV/RJ e da Petrobras. Desde 2002, atua na comunicação do serviço público. Primeiramente, na Secretaria de Fazenda da Prefeitura do Rio e hoje trabalha na Fiocruz. Em 2015, publicou o livro “O Inca Voluntário e suas histórias: a força da solidariedade”. Filha de pai mineiro e mãe alagoana, nasceu e vive na cidade do Rio de Janeiro, mas sempre foi mais de montanha que de praia. Não dispensa um bom papo, adora longas caminhadas e acha o bom humor fundamental para se viver.

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