Mulheres de Fé: mães de santo

Mulheres50mais começa hoje a série de reportagens “Mulheres de Fé”, sobre o dia a dia de mulheres que se dedicam à vida religiosa. A proposta é mostrar como elas conciliam essa vocação com os desafios da vida após os 50. As mudanças hormonais e os efeitos físicos e psicológicos da menopausa são sublimados por aquelas que, por sua profissão de fé, colocam a individualidade em segundo plano?

 Em busca de respostas para esses questionamentos, entrevistamos religiosas de diferentes denominações e os relatos serão agrupados por religião e publicados em capítulos. Começamos com as mães de santo.

Rosani Jardin, a Mãe Nani / Foto de Ana Lúcia Araújo

Rosani Jardin, a Mãe Nani / Foto de Ana Lúcia Araújo

Mãe Nani

“Na virada para os 50 anos, aceitei o sobrenatural e aquietei meu coração.”

Graduada em psicologia e odontologia, Rosania Jardim nasceu em uma família católica de classe média da Zona Norte de Janeiro. A mãe  — uma portuguesa naturalizada brasileira  —  era funcionária pública, e fez parte da equipe de auxiliares da grande psiquiatra Nise da Silveira, criadora do Museu do Inconsciente, do Hospital Pedro II, que revolucionou o tratamento da loucura no Rio de Janeiro. O pai foi engenheiro e estudou no tradicional colégio São Bento, dos monges beneditinos, famoso no Rio de Janeiro pelo rigor no ensino.

Rosania passou a infância entre a casa dos pais, no Méier, e a chácara da avó, no bairro da Piedade, também na Zona Norte. Foi batizada e crismada, casou-se na igreja e até hoje se declara católica fervorosa.

O que há de surpreendente na vida desta mulher? A resposta está em uma casa azul  —  no bairro do Engenho Novo, também na Zona Norte do Rio – com a seguinte inscrição na fachada: “Casa de Caridade Espírita Cacique Tupinambá”.

Rosania é mãe de santo e comanda o terreiro que funciona no local. Trata-se de um centro de Omolokô, junção de Umbanda e Candomblé.

“Possuímos em comum com o Candomblé as comidas, as roupas e os orixás, que não são cultuados na Umbanda. E em comum com a Umbanda os caboclos e os pretos velhos” explica Rosania, ou Mãe Nani, como é conhecida entre os filhos de santo e os frequentadores da casa.

Uma revolução pessoal

Nani relata que viveu uma revolução em sua vida pessoal depois dos 45 anos, fase que coincidiu com a menopausa.

A transformação, segundo ela, não foi física nem psicológica, mas espiritual. Depois de relutar por 30 anos em aceitar a nova religião, ela diz que compreendeu que tinha uma missão a cumprir, fundou o centro onde incorpora o Cacique Tupinambá, e, finalmente, se apaziguou. O centro não cobra por atendimentos. Mantém-se com doações de seus integrantes e é voltado para a caridade.

Seu envolvimento começou na infância, quando passou a apresentar problemas de saúde: tinha desmaios, sudorese intensa e ficava com as unhas e os lábios roxos. A família fez um périplo por médicos do Rio e de São Paulo, em busca de diagnóstico para o problema, mas eles não descobriam a causa dos desmaios.

Sem que os pais soubessem, a avó a levou a um cardiologista espírita. Como os demais, ele não constatou problemas físicos e aconselhou que ela fosse levada a um centro espírita.

“O espiritismo não fazia parte do meu universo. Fui chorando de medo. Uma senhora nos atendeu e, quando começou a rezar, incorporei várias entidades. A partir aquele momento, nunca mais tive desmaios”, relata Nani.

Aos 13 anos, ela passou a incorporar o caboclo Cacique Tupinambá. Trata-se, segundo explica, de uma entidade evoluída, que não bebe e não fuma. Nani diz que fica inconsciente quando incorpora o caboclo e não se recorda do que ocorre nas sessões. Esse fato sempre a deixou aflita e, por isso, a filha e o genro estão sempre ao lado dela durante as incorporações.

“Fico feliz por não ter consciência do que ocorre. Não sei como agiria se o caboclo mandasse as pessoas fazerem algo de que eu discorde.”

Conflito intelectual

Por muitos anos, Nani viveu uma relação conflituosa com a nova religião, intercalando períodos de rejeição e de aceitação, mas o destino, segundo ela, a empurrou para o cumprimento de sua “sina”.

Entre risos, conta que, aos 20 anos, casou-se com um engenheiro chamado Manoel Jorge Tupinambá. “Acredite se quiser, mas eu apaixonei por um Tupinambá” (mesmo nome do caboclo que incorpora). E a sogra, outra surpresa do destino, era mãe de santo em um terreiro umbandista.

Nani diz que uma das causas de seu conflito estava na relação dos pais de santo com os filhos de santo.

“Eu achava que os pais de santo, em sua maioria, exploravam o ser humano. Geralmente, moram no próprio centro e têm um séquito para servi-los. Não deixo nenhum integrante do meu terreiro fazer algo que eu não possa fazer. Aqui, eu limpo o chão como eles. Existe uma hierarquia, mas não sou a senhora do Centro”.

Aceitação

Nani diz que a grande mudança de sua vida foi a aceitação do sobrenatural e de sua mediunidade.

“Me incomodava receber o caboclo e não me lembrar de nada depois, embora saiba que ele não faz mal a ninguém. Era um questionamento intelectual. Mas, não há explicação intelectual para este fenômeno. Foi isso que eu tive de aceitar. Não há explicação científica para a incorporação de entidades.”

Deise da Conceição Cardoso, a Mãe Deise / Foto de Ana Lúcia Araújo

Deise da Conceição Cardoso, a Mãe Deise / Foto de Ana Lúcia Araújo

Mãe Deise

“Passei a gostar mais de mim e a me achar mais bonita”

Uma mulher franzina, de corpo quase adolescente, celebra a passagem dos 50 anos como um marco na relação consigo mesma.

– Eu era uma pessoa que não suportava praia. Agora eu adoro! Me olho no espelho e me acho mais bonita. Tenho vontade de me arrumar mais para ir às festas. Minha transformação foi me auto afirmar. Imaginava que a mulher vivia uma mudança na passagem dos 40 anos, mas para mim foi nos 50.

Aos 52 anos, Deise da Conceição Cardoso é avó de seis netos e criou três filhos sem a ajuda dos pais. Ela vive no bairro de Madureira, onde é respeitada na leitura dos búzios.

Deise é mãe de santo do Candomblé e está ligada a um terreiro da Nação Ketu. O pai de santo do terreiro que a recebeu no Candomblé (depois de ter se iniciado na Umbanda) tinha morrido havia duas semanas, quando ela nos recebeu para a entrevista, ainda muito abalada com a perda, e sem saber o que seria de seu futuro.

As mães de santo, segundo Deise, são paparicadas e vivem com muitas pessoas ao seu redor. Com ela, também é assim, mas, depois dos 50, ficou mais seletiva, principalmente na vida amorosa, e descartou a ideia de casamento. Com um relacionamento estável há cinco anos, diz que não cogita morar com ele sob o mesmo teto.

– Não quero ficar presa nem dar satisfação a um homem. Quero independência.

Como grande parte das mulheres da Zona Norte do Rio de Janeiro, que batalham duro, Deise resume sua história como uma batalha ininterrupta pela sobrevivência, que teve de ser vencida dia após dia e perdurou mesmo depois dos filhos se tornarem adultos.

O mais velho, de 34 anos, ficou desempregado  —  em razão da crise econômica  —  e mora com ela. Também ajuda financeiramente as duas filhas.

– Meus filhos são dependentes de mim por minha culpa. Fui provedora e mãe em excesso. Hoje tento fazer com que não sejam como eu.

Deise entrou na menopausa aos 51 anos, sem registrar sintoma físico. Não se recorda de ter tido calores, depressão ou insônia. As alterações, segundo ela, foram todas positivas e se deram no campo psicológico.

Passou a se interessar mais por leitura e a pesquisar sobre religiões espíritas. Ela se considera uma mentora espiritual dos clientes e diz que esta será sua missão até o final da vida.

Assim como Mãe Nani, Deise relata que buscou ajuda na Umbanda aos 14 anos, porque os médicos não achavam explicação para seus frequentes desmaios.

Estudou até a conclusão do ensino médio e cogitava estudar Psicologia. Começou a trabalhar adolescente, como aprendiz em um escritório de advocacia, foi mãe solteira aos 18 anos.

Ainda grávida do menino, conheceu o pai de suas duas filhas. Foi cabeleireira e costureira para sustentar as crianças. Aos 36 anos, passou a se dedicar exclusivamente aos búzios. Ela mora em uma casa muito pequena e atende aos clientes na varanda.

Depois da “revolução pós-cinquenta”, Deise diminuiu o ritmo de trabalho. Mas, como cada consulta dura uma hora ou mais, ainda enfrenta longas jornadas diárias em atendimento.

Pergunto qual é sua meta de vida e ela responde com uma frase curta: “ Meu maior desafio é cortar o cordão umbilical dos filhos e fazer com que sejam, finalmente, independentes de mim”.


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Elvira Lobato

Elvira Lobato

Mineira, de uma família de 17 irmãos, foi criada na zona rural de Pitangui, na região do Cerrado. Aos 19 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde participou da resistência à ditadura e construiu sua carreira de repórter. Formada pela UFRJ, atuou na imprensa escrita por 39 anos, 27 deles na “Folha de S. Paulo”, onde fez parte do núcleo de repórteres especiais de 1992 a 2011, quando se aposentou do jornalismo diário para se dedicar a projetos pessoais. É autora do livro “Instinto de Repórter”, sobre seus métodos de investigação jornalística. Está no ranking de jornalistas mais premiados do Brasil. Recebeu, entre outros, o Prêmio Esso de Jornalismo, em 2008, pela reportagem sobre o patrimônio dos dirigentes da Igreja Universal do Reino de Deus. Em janeiro de 2016, publicou a reportagem “TVs da Amazônia Legal-Realidade que o Brasil Desconhece”. Aos 62 anos, casada, tem três filhos e dois netos. Alimenta sua alma de repórter com incursões pelo interior para fotografar e coletar histórias da gente brasileira. Faz bordados lindos e um pão de queijo….

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