“E se eu entrar nesse hospital e nunca mais sair?”

Profissional de saúde sentiu raiva e teve de lidar com a sensação de impotência por ter se contaminado

Por Ana Tolentino, Bárbara Negrini, Bruna Lima, Letícia Rivoli Menegatti e Rogério Fontes

Em sua casa, em Niterói, a enfermeira Cláudia Maria Toledo se recupera da Covid-19. Foto: Helcio Torres

No caminho para o Hospital Niterói D’Or, Cláudia já sabia que seria internada. Trabalhar na linha de frente do combate à pandemia que mata milhares de pessoas por dia tem um preço. E ela, mais do que ninguém, estava ciente de todos os riscos. No final da tarde do dia 14 de abril, Claudia se despediu de seu marido e foi isolada em um dos quartos brancos, onde se manteve por mais de duas semanas.

Cláudia Maria Toledo, de sessenta anos, é enfermeira e trabalha há sete anos no Hospital Federal dos Servidores do Estado, no setor Central de  Esterilização. Ela relata que sentiu raiva e impotência por ter sido contaminada, principalmente por ser uma profissional que trabalha com esterilização de materiais. Mesmo tomando todas as medidas de proteção necessárias, já não podia mais lutar contra isso.

“E se eu entrar nesse hospital e nunca mais sair?”, pensava. Enquanto se preparava para ir ao hospital, Cláudia não separou nenhum artigo de higiene ou roupas. “Ao mesmo tempo que eu estava em pânico por saber que eu tinha piorado muito, eu não passei isso para o meu marido, eu não queria que ele ficasse apavorado”.

Quando chegou no hospital, o sentimento de solidão era forte. Ainda não existiam muitos casos na CTI e, ao longo dos dias, pode ver o vírus se alastrando e o número de leitos ocupados crescendo surpreendentemente rápido. Na noite de terça-feira em que foi internada, Cláudia foi informada que no seu andar apenas o seu quarto e o de mais um paciente estavam em isolamento. Já na quarta-feira já havia oito quartos isolados. No seu último dia de internação ela conta que a maior parte dos leitos do andar já eram espaços isolados. Ela conseguia ver de perto como o sistema de saúde foi se tornando sobrecarregado.

Cláudia se recuperou da doença e, nesta última semana, voltou ao trabalho no Hospital Federal dos Servidores do Estado. Ela comentou não saber da da gravidade da situação no período em que estava isolada. “O hospital está cheio de pacientes da covid-19 e as pessoas seguem andando na rua como se não estivesse acontecendo nada, como se não houvessem pessoas morrendo”.

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