É preciso saber aonde ir

No escritório em Botafogo, as paredes são claras com poucos quadros e a janela não tem cortina. Nem precisa. A Praia de Botafogo e o Pão de Açúcar fazem parte de um quadro natural, surpreendem os visitantes e servem de combustível diário para Dayse Gomes se energizar. Aos 48 anos, ela é coach e consultora de Desenvolvimento Organizacional e Humano, sócia da empresa Carreira Bistrô e professora. Já teve cargo executivo por sete anos em uma multinacional. Hoje, trabalha para ajudar pessoas em momento de transição, de transformações. O sorriso é largo e pontua toda a conversa intensa temperada com água, café e fatias generosas de bolo.

A questão central da entrevista é como descobrir as habilidades e os talentos de cada um. O que fazer quando a inquietação chega e fica uma angústia de não saber para onde ir? Para ela, o primeiro passo é resgatar a própria história. Descobrir o que te mobiliza não é fácil, mas ela diz que esse percurso não precisa ser doloroso: “É preciso ter um propósito de vida que te leva a um projeto”, afirma.

“Lembro de uma referência da fábula ‘Alice no País das Maravilhas’, quando ela está perdida no labirinto e pergunta para o gato onde é a saída. E ele devolve a pergunta: para onde você está indo? E ela responde “não sei”. E ele diz: então qualquer caminho serve.” As pessoas têm isso de não saber de fato se querem ou gostam de algo. A primeira questão é: Qual o seu propósito? O que veio fazer nesta vida?”

No dia 1º de setembro, às 14h, o Mulheres50mais e o Carreira Bistrô realizam o workshop “Protagonismo: Vida & Carreira”, com Dayse Gomes, sobre transformações na vida pessoal e profissional. Para participar, é preciso se inscrever no link http://bit.ly/2aWzJlD. As vagas são limitadas. Nessa entrevista, a coach de carreira aborda algumas das questões que o tema desperta.

A coach Dayse Gomes, na janela de seu escritório: "As pessoas precisam descobrir o que vieram fazer nessa vida"./ Fotos e vídeo de Ana Lúcia Araújo

A coach Dayse Gomes, na janela de seu escritório: “As pessoas precisam descobrir o que vieram fazer nessa vida”./ Fotos e vídeo de Ana Lúcia Araújo

Como é a jornada de uma pessoa que precisa descobrir seus talentos?

A primeira coisa é dar conta da sua própria biografia. Sentir se você estava conectado, se estava satisfeito com o que fazia. É preciso fazer um resgate desde a infância, pensar naqueles episódios em que houve momentos decisivos e em como as decisões foram tomadas, pensar nas circunstâncias que te levaram a um determinado caminho e nas que te levaram à situação atual. É importante pensar também no que não foi agradável. Então, uma das técnicas é rever a biografia e avaliar os momentos em que de fato você estava próximo ou distante do seu propósito, da sua conexão. Outro ponto é entender quais são os seus valores, suas crenças, o que de fato te mobiliza e se você tem facilidade de se relacionar com o outro.

Como definir esses valores?

É preciso conhecer os princípios de vida que te mobilizaram até agora. A partir de decisões que foram tomadas você vai entender claramente os caminhos seguidos. É preciso se perguntar: “será que fui ético?” Ética é um valor. Será que esteve sempre presente ou teve um momento em que questionei algo e não cumpri? Nessa hora fazemos a prova dos nove dos valores. O papel do coach é ajudar o cliente a buscar esse autoconhecimento. O coach é uma pessoa que faz perguntas poderosas porque o autoconhecimento é muito difícil sem as boas perguntas. É diferente do processo terapêutico, onde geralmente se trabalha com problemas mais patológicos, traumas ou uma questão mal resolvida. O coach visa a trabalhar projetos.

Todo mundo é capaz de fazer isso ou é difícil?

Todo mundo é capaz, mas não é um processo simples. Essa porta de entrada tem que ser aberta. Certamente há casos mais difíceis, pessoas que estão mais cristalizadas, paralisadas, têm questões mal resolvidas. Não tenho como dizer que você vai resolver isso em x sessões. A gente trabalha geralmente com 12 sessões. Às vezes há situações que precisam ser discutidas ou trabalhar com um terapeuta. Eu cuido do projeto e o terapeuta, de questões nas quais o coach não aparece. Por exemplo, uma pessoa se sente desvalorizada e podemos descobrir que os pais não a valorizaram. Isso será direcionado para um processo terapêutico. O coach não vai caçar pedra para tirar coisas, ele vai te ajudar a passar por aquilo. Vamos ajudar nessa investigação pessoal.

No caminho dessa revisão, algumas pessoas rompem com muitas coisas. Uma mulher ao chegar aos 50, por exemplo….

Sim e essa inquietação começa um pouco antes. Trabalho na linha antroposófica, que trata dos ciclos de sete anos. Aos 42 anos, esse ciclo é um espelho dos 21. Nessa fase você quer resgatar o que se passou no início da sua vida adulta porque muitas escolhas ainda permanecem e outras não fazem o menor sentido. Aos 42 você diz “o que eu estou fazendo aqui? Caramba, o que é que estou fazendo nessa relação, nesse trabalho? O que não fiz até agora que está me dando um vazio por dentro?” Normalmente, você vai lá nos 21 e descobre, por exemplo, que queria ser músico e desistiu porque precisava de grana e foi fazer Medicina. Aos 42, começa a inquietação, você resgata a música e forma uma banda com os amigos. Ótimo! Porque isso está dentro do seu propósito e, talvez, a Medicina também estivesse, mas a música não poderia ter ficado para trás. Assim, esse resgate ajuda a dar sentido, canalizar emoções e outras necessidades. Às vezes, só o trabalho não dá conta das escolhas que você fez.

E se a mulher não enxergar essas possibilidades de mudanças e não conseguir identificar essa angústia?

Às vezes, ela não percebe o que está acontecendo. Ela pode rever valores de coisas que fez há 10, 15 anos e que agora não fazem o menor sentido. Só que a gente não costuma dar atenção aos processos. O coach ajuda a investigar melhor isso, que você não está satisfeita, que tem uma coisa mal parada que não está resolvendo. Essa angústia aparece lá pelos 42 anos.

Peça de decoração no inspirador escritório de Dayse. / Fotos de Ana Lúcia Araújo

Peça de decoração no inspirador escritório de Dayse. / Fotos de Ana Lúcia Araújo

E aos 49?

A partir dos 49 surge uma série de questionamentos sobre legado. Em geral, uma mulher nessa idade já tem filhos criados ou eles estão deixando a casa e construindo a própria história. Ou ela está numa relação nova ou esteve num segundo casamento ou no divórcio. Com filhos ou não, ela está construindo uma relação nova. E é comum que isso mexa na questão profissional. Às vezes, essa relação no trabalho já se esgotou. Normalmente, surgem os projetos mais autônomos. Você já tem condição de lidar com mais autonomia nas suas escolhas e geralmente vai fazer voos solos ou resgatar o que ficou para trás, como o exemplo da música. Nessa fase, a pessoa se especializa ou vai para vida acadêmica ou para a consultoria, vai orientar alguém num projeto, ser o mentor. Os vínculos com a relação de trabalho são diferentes porque, em geral, você tem questões mais ou menos resolvidas do ponto de vista financeiro, pode ter um patrimônio ou uma reserva após tantos anos de trabalho. Essas mudanças estão mais para uma qualidade de vida do que um grande vínculo profissional. A pessoa geralmente vai buscar atividades mais autônomas, com horários mais flexíveis, em que ela seja a protagonista, o chefe de si mesmo.

Há quem não consiga encarar essas mudanças…

Há pessoas com uma carreira consolidada e que estão se aposentando ou saíram do emprego e entram em depressão porque viviam para o trabalho. Essa pessoa não tem a capacidade de buscar o seu próprio papel, não consegue ver outras possibilidades. Algumas podem entrar em depressão. Nitidamente precisam de ajuda, de apoio. Há pessoas que conseguem facilmente fazer essa transição porque se organizaram, já vinham num processo de autoconhecimento ou de olhar a longo prazo. Já se prepararam para esse momento.

Por que para alguns é tão difícil?

Para algumas pessoas é assustador porque passam, por exemplo, 30 anos ligadas a uma única organização e se apresentam usando essa organização como sobrenome. Eu sou fulano do lugar tal. Alguns não conseguem encarar a perda desse sobrenome. Eu conheço uma pessoa que desistiu de ir a um evento para evitar encontrar outras pessoas porque ela “não era de lugar nenhum”. Eu falei: “Você tem um sobrenome que é seu e não da empresa. Você é uma excelente profissional, tem uma história. E ela estava esquecendo a própria história. A empresa fazia parte da sua história, mas não era a sua história. Essa pessoa precisa de orientação para descobrir o sentido desse propósito e ter um projeto de vida. Você tem que ter as duas coisas. Você pode até não querer trabalhar mais e isso é um propósito. Um exemplo: agora eu tenho três netos e vou me dedicar a cuidar deles. Isso é um baita propósito. Ou eu vou curtir a vida, não quero ter hora para acordar. O fato é que as pessoas precisam ter um projeto, fazer uma nova conexão. Criar uma rotina nova de atividades que façam sentido na sua vida.

E se não souber por onde começar?

A geração Y de hoje tem um grande benefício. Eles não separam trabalho de vida pessoal, então a conexão está presente. Para eles é tudo junto e misturado. A gente não. A geração X inventou o happy hour para ser feliz depois do trabalho. Você vai para casa e esquece o trabalho. A outra geração não. Eles valorizam a individualidade. Falamos que esses meninos são muito centrados neles próprios. Isso é ruim, mas é muito bom, por outro lado, porque cuidam da vida deles. Às vezes demora mais para assumir a própria vida e vem a história da geração Canguru, que demora a sair de casa. Em geral, quando saem são mais empreendedores do que a gente foi, mais lutadores por aquilo que querem. Não abaixam a cabeça. Fomos mais submissos a uma entidade chamada empresa, e pensávamos na sobrevivência sem motivações envolvidas. E é exatamente o que falta nas pessoas hoje quando se deparam com esse ponto de interrogação: não sabem quais são as suas motivações, seus desejos, suas necessidades. Não sabem criar novas oportunidades de trabalho, um projeto, vender uma ideia.

Como as pessoas, que estão nessa transição, podem encarar esse momento e descobrir o que podem fazer além do que faziam?

Quanta coisa se pode fazer. É preciso refletir sobre seu trabalho e ver suas competências. Sozinho em casa não se vai muito longe. Tem que pensar em conexões: com quem se juntar? Vou falar com fulano, que é ótimo para vender e eu não sou, o outro é ótimo em outra área. Assim você vai criar uma atividade nova, seja para ganhar dinheiro ou preencher sua vida com uma atividade que te dê prazer. É necessário fazer conexões novas, contatos novos, ouvir e ver pessoas que estão fazendo alguma coisa com a qual você pode contribuir. Eu diria que são os 50 atuais, porque nos 50 do passado a gente estava reduzindo a marcha. Agora, precisa sair dessa zona de conforto, buscar novas perspectivas. Precisa-se ter claramente um projeto, investir nisso. Para mim, as palavras mágicas são propósito, projeto e rede de relacionamento. Se você usar sua rede sozinha, não vai muito longe, mas se você tem um propósito e abre a rede, junta com um, fala com outro, as coisas vão acontecendo. Você não consegue isso ficando em casa fechado, deprimido.

Olhando para trás…

Sim, olhando no retrovisor. Fiz um trabalho com pessoas que perderam cargos e falavam o tempo todo “eu fui, eu era”. Eu lembrei que o verbo estava no tempo errado. Agora é “eu serei, eu farei”. Olhar para frente. O que você precisa saber é: o que quer fazer e, se não consegue sozinho, o caminho é buscar ajuda. O tempo passa e você pode ficar parado no mesmo lugar muito tempo.

Que dicas você daria para quem está passando por essa mudança?

Pense no seu propósito, resgate sua história e procure descobrir que fatores te mobilizam, o que faz o teu olho brilhar. Depois pense num projeto de vida para o momento atual, elabore um projeto de vida. É importante ter um plano A,B,C. E fazer conexões. Ajuda conversar com pessoas, falar dos seus projetos. De repente, você vai ver que tem outras pessoas pensando coisas parecidas e que podem te ajudar muito a ter novas ideias ou botar a sua ideia de pé. Ouvir o outro te ajuda a consolidar o projeto e abre portas. É importante atualizar a própria história. Às vezes você conheceu uma pessoa há 15 anos e ela não sabe o que você está fazendo agora. Faça uma lista de pessoas com quem você possa conversar, que são interessantes. Ligue para elas e conte sobre o seu momento. Você tem que usar a força da rede.

Como está o mercado para os acima de 50?

Em muitas empresas essas pessoas viraram consultores, estão ajudando a formar novas lideranças. Elas estão sendo valorizadas porque existe uma necessidade de lideranças capazes, inclusive, de liderar as multigerações. Hoje, numa empresa, há um jovem começando a carreira, outro de 30 a 40 com faca nos dentes. Os que passaram dos 50 estão pensando num legado. A onda é outra. Ele é um mentor, já viveu sucessos e fracassos. É mais suave, mais paciente, mais gentil, quer compartilhar. Ele está em paz, como naquele filme “O senhor estagiário” (com Robert de Niro e Anne Hathaway). Claro que tem exceções, mas, em geral, as pessoas passam a ser mais generosas. Elas têm uma história, passam a fazer escolhas com mais qualidade e são mais generosas. No filme, ele fazia um trabalho de mentoria, de estímulo. É claro que também pode ser o protagonista, ficar no palco e não nos bastidores. O importante é ter um propósito e um projeto.

Vídeo de Ana Lúcia Araújo.

Angelina Nunes

Angelina Nunes

Carioca, apaixonada pelo samba, ela tem pressa. Nasceu dentro de um trem da Central do Brasil, quando os pais tentavam chegar ao hospital na Tijuca. Está entre as jornalistas mais premiadas do Brasil, tendo conquistado Esso, Embratel, Vladimir Herzog, SIP, YPIS e Rey de España. Formada pela UFRJ, fez pós-graduação em Políticas Públicas no Iuperj e é mestre em Comunicação pela Uerj. Começou a trabalhar em 1980. Foi repórter e editora-assistente na Rádio MEC, TVE, TV Manchete, O Dia e O Globo. É professora na ESPM-RJ e integra o conselho da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), da qual foi presidente em 2008–2009. Adora viajar e inventar novas trilhas com a filha Bárbara e o parceiro Paulo. Gosta de dançar e cantar, de caminhar na praia ou no mato, de astrologia e tarot. Viciada em séries e em livros. Gosta de trabalhar em equipe e de fotografar. Não gosta de cozinhar, mas adora comer.

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