Contra o câncer, tratamento e muito carinho

Mastologista que teve tumor de mama defende atendimento mais humano e diz que detecção precoce é fundamental para possibilitar a cura. 

Num consultório na Zona Sul do Rio, as pequenas esculturas de seios estão espalhadas na mesa e na estante ao lado, dividindo espaço com os livros técnicos. Gesticulando e ajeitando os óculos de armação vermelha, a mastologista Maria Helena Vermot, 56, fala com entusiasmo do assunto que estuda desde o final dos anos 1980: o câncer de mama. Os dados são preocupantes. No Brasil, a estimativa para 2016, segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), é de 57.960 novos casos. Dados do Instituto revelam que, em 2013, foram registrados 14.388 óbitos, sendo 14.206 mulheres e 181 homens. Para Maria Helena, a melhor estratégia para reduzir as estatísticas de mortalidade é a detecção precoce.

Depois que se formou pela Escola de Medicina Souza Marques, no Rio, em 1985, a mastologista fez internato e estágio durante dois anos no Hospital da Aeronáutica. Em 1991, foi para a Itália com uma bolsa do Instituto do Câncer de Milão, onde aprendeu novas técnicas de cirurgia conservadora de mama. Voltou ao Brasil, montou consultório e fez pós-graduação. Entre 1992 e 2000, trabalhou na Organização Mundial da Saúde (OMS), em Genebra, no Programa de Controle do Câncer. Com atuação na Sociedade Brasileira de Mastologia, após retornar definitivamente para o Brasil, Maria Helena Vermot deu nova guinada ao completar 50 anos: criou a Aliança Internacional contra o Câncer de Mama (ALICCAM).

Maria Helena Vermot: “44% dos ginecologistas no Brasil não fazem exame de mama, o que é um absurdo” / Fotos: Ana Lúcia Araújo

Maria Helena Vermot: “44% dos ginecologistas no Brasil não fazem exame de mama, o que é um absurdo” / Fotos: Ana Lúcia Araújo

Na nova empreitada, reuniu especialistas nacionais e internacionais para promover encontros onde os médicos compartilham experiências aprendidas em hospitais de vários países. O lema é disseminar o conhecimento, promover a atualização de dados e capacitar profissionais. Ela quer construir pontes entre os especialistas, os médicos e o público.

Mãe de dois filhos, Bernardo de 30 anos e Laura de 20, Maria Helena Vermot fala sem rodeios de como descobriu que tinha câncer de mama, no final de 2012. Do susto à cirurgia. Da vontade de voltar ao trabalho, de “viver a vida”, como repete duas, três vezes.

“Nós precisamos de atitude para enfrentar o que vem com a doença, ter coragem para suportar os tratamentos que não são fáceis e também ter orgulho de sobreviver a isso sem a sensação de derrota. O câncer é uma doença solitária.”

Da experiência pessoal com a doença, ela saiu também com uma tatuagem que fez bem em cima do coração, no lugar onde foi detectado o tumor. Uma reprodução em traços delicados de um anjo que está desenhado no teto da Capela Sistina, no Museu do Vaticano, em Roma. É a única vez em que pede para que não ser fotografada:

 “É muito pessoal. Meu anjinho, minha proteção.”

Maria Helena defende o autoexame mensal, independentemente da idade da mulher

Maria Helena defende o autoexame mensal, independentemente da idade da mulher

Vivenciar a doença, segundo ela, a ajudou a ser uma médica melhor.

 “Eu queria viver, amar, trabalhar, fazer ginástica. Por isso, defendo que temos que lutar para ter acesso à detecção precoce, ouvir especialistas. Nos dar a oportunidade de escolher a vida.”

“Eu caminhei ao lado das minhas pacientes. Sei que a mulher com câncer, às vezes, chega num hospital frio, é atendida de maneira formal, dura. O outro precisa entender que ela está passando por um momento muito delicado e que, além do tratamento, precisa de colo, de aconchego. Precisa ser enxergada como uma pessoa que está enfrentando uma batalha. Precisa de aliados, de carinho.”

Na entrevista ao Mulheres50mais, Maria Helena Vermot defende o autoexame mensal, independentemente da idade. Explica a necessidade de exames, fala sobre os indícios do corpo que podem apontar para a existência da doença e a importância da detecção precoce:

CAPITAL GENÉTICO  —  “É fundamental que as pessoas entendam que desde a gestação a mãe deve ser bem orientada em sua alimentação, na manutenção do peso e outros cuidados. Isso vai ajudar a filha na prevenção do envelhecimento celular. O ideal é desde a infância evitar alimento tóxico demais (com agrotóxicos que são prejudiciais à saúde), enlatados, fazer o controle do peso, ter uma alimentação mais natural possível e praticar exercícios. Isso vai ajudar na prevenção das doenças crônicas. Deve-se, por exemplo, controlar a ingestão de sal, açúcar, gordura.”

CUIDADOS  —  “O que faz uma mulher de 50? O que ela já deveria estar fazendo desde os 40. Repito, a diferença começa em nascer bem, de uma mãe que se nutriu, que não fumou. Quem tem uma genética boa ajuda muito. Mas é claro que trabalhamos com recomendações para toda a população. O que vai servir são as intervenções que podemos fazer no nosso estilo de vida. Você tem que olhar a paciente do ponto de vista global. A mulher que chegou aos 40 deve evitar o estresse desnecessário, fazer um check-up cardiovascular, seus exames preventivos. E, claro, alimentação mais natural e exercício físico.”

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DETECÇÃO PRECOCE  — “Essas são as palavras-chaves. A detecção precoce reduz a mortalidade do câncer de mama. Na década de 50, foi feito um programa de rastreamento com o uso do exame ginecológico (teste de Papanicolau). Um exame barato que provou que a detecção de uma lesão no útero pode apontar para um câncer e seu possível tratamento.”

RASTREAMENTO DE CÂNCER DE MAMA  — “Trabalhei na Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1992, quando morei em Genebra durante oito anos. Tive oportunidade de atuar em um programa de rastreamento para identificar os melhores métodos de detecção de câncer de mama. Foram elaboradas pesquisas com os exames que eram mais usados na época: o autoexame, a mamografia, o exame clínico. Lembrando que mamografia na época era de baixa qualidade. Então se preconizava muito o autoexame. Os programas duravam 20 anos. Ainda não era disseminada a ultrassonografia de mama, por isso ela não foi incluída no programa. Naquele momento foi identificado que o exame isolado que mais dava resultado de detecção de câncer de mama era a mamografia. O autoexame identificava os nódulos palpáveis, com 2 cm. Mas hoje queremos é detectar os menores, o que não é palpável.”

AUTOEXAME  — “O autoexame mensal deve ser feito a partir dos 20 anos ou a partir do início da vida sexual ou quando se começar a tomar pílula anticoncepcional. Deve ser feito, por quem menstrua, sete dias após o início da menstruação. Chegamos à conclusão que a mamografia é o exame mais eficiente, mas recomendamos o autoexame porque ele permite que a mulher conheça melhor sua mama, toque no seu corpo e comece a ter dúvida se encontrar um nódulo, uma mancha. A atenção com a saúde gera a possibilidade de detectar tumores precoces. Muita gente descobre nódulos desta forma. No Brasil, por conta do biótipo da maioria das mulheres brasileiras, com seios pequenos, é possível detectar nódulos, caroços.”

APÓS A MENOPAUSA — “Se a mulher já não menstrua mais por causa da menopausa ou tirou o útero por outros motivos, ela deve fazer o autoexame uma vez por mês. Como escolher o dia? Eu recomendo que cada uma escolha uma data. Pode ser o do dia do aniversário, assim fica mais fácil de lembrar. Se esqueceu a data, não tem problema, faz depois, mas faz. O autoexame é uma ferramenta que temos em nossas mãos. Ele não substitui a mamografia, mas auxilia para detecção de um caroço, de um nódulo.”

EXAMES ANUAIS  — “Desde os 20 anos, a mulher deve ter uma consulta anual com o ginecologista, solicitar que ele examine sua mama e fazer ultrassonografia. Essa recomendação é para as que não têm risco e nem histórico familiar de câncer. É bom lembrar que 44% dos ginecologistas no Brasil não fazem exame de mama, o que é um absurdo. É importante solicitar exame clínico feito por um profissional habilitado. Um aviso importante: se houver nódulo ou risco familiar, deve ser feita uma consulta com especialista e outros exames. Claro que, dos 20 aos 40 anos, se aparecer algum nódulo, é um alerta para ser observado. A mamografia anual é lei aqui no Brasil desde 2008. Recomenda-se uma mamografia anual a partir dos 40 anos, se não houver risco familiar. Caso contrário, deve ser feita a partir dos 30.”

EXAMES  — “Recomendo sempre um exame ginecológico anual com Papanicolau; uma colposcopia para detectar presença de HPV; uma ultrassonografia abdominal total; um raio X de tórax para quem fuma e uma ultrassonografia transvaginal. A partir dos 50, eu incluiria um exame de tireoide e densitometria óssea. Outros exames importantes são uma endoscopia digestiva e uma colonoscopia, ambos a cada cinco anos.”

EXPERIÊNCIA PESSOAL  — “Descobri que tinha câncer de mama ao fazer uma mamografia há pouco mais de três anos. Muitos da minha família morreram da doença. Um ano antes ninguém tinha visto. Fui fazer um exame de rotina e diagnosticaram um tumor numa área bem em cima do coração. Fiz uma cirurgia para retirada da glândula mamária com reconstrução e no lugar onde estava o tumor tatuei um anjinho, reprodução de um anjo da Capela Sistina. Eu tive uma reconstrução maravilhosa, fiquei com um seio um pouco maior que o outro, mas isso não incomoda. Muitos ficam assim. Hoje vejo que ganhei um presente de Deus. Pude percorrer o mesmo caminho de minhas pacientes que passam por esse problema. Esse carcinoma inicial foi um alerta de que você é um ser que não vai durar para sempre, te confronta com a morte. Hoje considero que sou uma médica melhor, posso entender melhor meus pacientes.”

CARINHO  — “A mulher que está com câncer precisa ser tratada com muito carinho. Ela chega num hospital cinza, impessoal. É terrível. A mulher precisa de colo, de aconchego. O câncer é uma doença solitária. O político não quer você porque ele pensa que você pode não ser mais o eleitor dele na próxima eleição, o amigo, às vezes, se afasta porque não quer se comprometer. O tratamento é duro, a quimioterapia dá enjoo, você perde o cabelo. Ninguém está bem quando tem que fazer uma cirurgia que mutila parte do seio, por exemplo. Todos os tratamentos são agressivos. Você sai de licença, sai do mercado de trabalho e quando volta tem medo. Se a mulher tira o seio não se acha bonita, acha que perdeu a capacidade de amar, se considera assexuada. Algumas querem se aposentar. Eu queria viver, amar, trabalhar, fazer ginástica. Por isso defendo que temos que lutar para ter acesso à detecção precoce, ouvir especialistas. Nos dar a oportunidade de escolher a vida.”

COMO FAZER O AUTOEXAME  — “A mulher deve ficar sem roupa na frente do espelho, com a mão na cintura e observar seus seios. Primeiro ver se está como sempre estiveram, se não tem abaulamento (saliência curva), um desvio, uma retração do mamilo ou da parte inferior da mama. Não estamos falando de questão estética. O que se busca observar é se tem infecção no mamilo, uma vermelhidão. Às vezes, a vermelhidão pode ser na pele da mama. O segundo passo é examinar no chuveiro, durante o banho, com bastante sabonete. Colocar a mão direita atrás da cabeça e com a mão esquerda examinar o seio direito. O sabonete ajuda a escorregar a mão no seio e até na axila. Num movimento de alisa e aperta. O cuidado é para apertar um pouco o mamilo, não para espremer e ferir. Observar se tem alguma secreção de sangue, transparente ou de outra cor. Depois repetir a mesma operação usando a mão esquerda atrás da cabeça. Feito todo o movimento nas duas mamas, a terceira etapa será depois do banho e na cama. A mulher deve deitar e colocar um travesseiro atrás das costas. Repetir o mesmo movimento que fez debaixo do chuveiro. O que se procura é perceber se há um caroço, por exemplo. Se houver, deve procurar o médico. O nódulo pode ser benigno, mas o especialista deve avaliar.”

MAMILO RETRAÍDO  — “Pode ser um indicativo de tumor maligno. Mas atenção, quem sempre teve o mamilo retraído é diferente. Quem teve a vida toda o mamilo assim é normal. No entanto, quem um dia acorda e percebe o mamilo retraído ou uma parte da mama retraída, deve procurar o especialista. Uma ferida e um sinal que apareceu também podem ser um indicativo.”

SILICONE  — “Quem colocou silicone também deve fazer o autoexame. O silicone não vai atrapalhar.”

RETIRADA DA MAMA  — “Só quando há necessidade. O paciente que faz uma intervenção cirúrgica para retirada parcial ou total da mama será tratado. Pode ser usada a radioterapia ou quimioterapia.”

Contra o câncer, tratamento e muito carinho — Mulheres 50 mais

 

Angelina Nunes

Angelina Nunes

Carioca, apaixonada pelo samba, ela tem pressa. Nasceu dentro de um trem da Central do Brasil, quando os pais tentavam chegar ao hospital na Tijuca. Está entre as jornalistas mais premiadas do Brasil, tendo conquistado Esso, Embratel, Vladimir Herzog, SIP, YPIS e Rey de España. Formada pela UFRJ, fez pós-graduação em Políticas Públicas no Iuperj e é mestre em Comunicação pela Uerj. Começou a trabalhar em 1980. Foi repórter e editora-assistente na Rádio MEC, TVE, TV Manchete, O Dia e O Globo. É professora na ESPM-RJ e integra o conselho da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), da qual foi presidente em 2008–2009. Adora viajar e inventar novas trilhas com a filha Bárbara e o parceiro Paulo. Gosta de dançar e cantar, de caminhar na praia ou no mato, de astrologia e tarot. Viciada em séries e em livros. Gosta de trabalhar em equipe e de fotografar. Não gosta de cozinhar, mas adora comer.

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