Como fazer da moda uma aliada após os 50

Com seu 1,78 m de altura e os cabelos ruivos, Denise Voss é do tipo que “chega chegando”  e jamais passa despercebida em um ambiente.  Além de ter sido modelo quando era mais jovem, é estilista e professora de modelagem, o que significa que sabe usar a moda a seu favor. Aos 53 anos, Denise tem hoje um ateliê em Ipanema, no Rio de Janeiro, o ModaD, onde dá aulas de desenho de moda, modelagem e workshops relacionados ao tema. O espaço é compartilhado por universitários que frequentam as aulas de desenho e por mulheres de diferentes faixas etárias que (re)descobrem ali o prazer de costurar.

Denise Voss: Todas as pessoas têm estilo, mesmo que não saibam disso. Foto de Ana Lúcia Araújo

A estilista Denise Voss garante: todas as pessoas têm estilo, mesmo que não saibam disso. Foto de Ana Lúcia Araújo

 

Criada em Campinas (SP), Denise chegou a estudar arquitetura, na PUC de Campinas, mas abandonou a faculdade para entrar no mercado de trabalho. Aos 19 anos, foi viver com o namorado e trabalhou como assistente em estúdio de fotografia e em agências de publicidade na capital paulista.

Em 1987, o casamento acabou e ela se mudou com a cara e a coragem para o Rio de Janeiro, para fazer o curso de moda que acabara de ser criado pelo Senai/Cetiqt. Integrou a segunda turma do curso, que ainda hoje é referência na formação de estilistas profissionais. Casou-se com o atual marido em 1994 e tem um filho de 16 anos. Foi estilista da famosa grife carioca Mara Mac e professora de moda na Faculdade Cândido Mendes, de 1996 a 2006. Também é autora de dois livros: “Desenho de Moda” e “Desenho de Moda e Anatomia”.

Até se firmar no mercado da moda, no Rio, sua trajetória foi dura. Morou no alojamento da faculdade e dividiu quarto com outras alunas do curso do Senai/Cetiqt, trabalhou em confecções na zona Norte da cidade e na indústria têxtil. Conta, rindo, que conseguiu o primeiro estágio em uma confecção de bermudas para surfistas que abastecia camelôs. “Toda experiência é válida e acumula conhecimento”.

Nas confecções da zona Norte, fez sua rede de contatos com costureiras e fornecedores e aprendeu como funciona esse segmento da indústria. “Vejo muitos jovens querendo abrir confecção logo após se formarem. É preciso trabalhar pelo menos seis meses como empregado antes de abrir o próprio negócio, para aprender o que a escola não ensina”, diz ela.

Durante seu aprendizado, no fim dos anos 80, foi assistente no ateliê de alta costura de Pillar Rossi, que tem loja na Madison em Nova York. Mas, o principal e último emprego foi na Mara Mac, de onde saiu em 2006 para morar nos Estados Unidos com o marido e o filho. De volta ao Brasil, em 2010, decidiu que não trabalharia mais para os outros.  E assim, em 2012, abriu o ModaD.

“Foi uma grande virada nos meus 50 anos e um enorme desafio para mim. Como muitas mulheres da minha idade, fui educada para me casar e ser funcionária pública”, conta ela.

O estilo de cada um

Fui aluna de Denise em seu ateliê e estou entre as mulheres que estudaram corte e costura depois de aposentadas pelo simples prazer de desenvolver uma nova habilidade. Estudei modelagem com ela depois de concluir o curso básico do Senac.

Para as que não frequentam este mundo das agulhas e tesouras, uma explicação inicial: a modelagem exige conhecimentos matemáticos, precisão de cálculos e concentração.

Os moldes permitem fazer peças sob medida, que, bem feitas, disfarçam imperfeições do nosso corpo. O molde que veste bem um bumbum avantajado não fará bonito em um corpo sem curvas. Mas os dois serão valorizados em roupas bem cortadas.

Denise Voss define seu estilo como “clean” e “arquitetônico”. Diante de meu olhar de interrogação, ela explica que estilo arquitetônico são peças estruturadas, limpas, de desenho arrojado, como as da Mara Mac. Ela não costuma usar muita estampa, mas é fã de sobreposições e da mistura de cores.

Para Denise, vestir-se bem após os cinquenta anos depende de três fatores: nosso estilo de vida, os lugares que frequentamos e o conhecimento do nosso corpo. Foto: Ana Lúcia Araújo

Para Denise, vestir-se bem após os cinquenta anos depende de três fatores: nosso estilo de vida, os lugares que frequentamos e o conhecimento do nosso corpo. Foto: Ana Lúcia Araújo

Para a estilista, todas as pessoas têm um estilo de vestir, mesmo que sua combinação de roupas nos pareça inadequada ou confusa. O estilo é a maneira de vestir no qual a pessoa se sente melhor. Ela acredita que um consultor de moda pode aprimorar o estilo de uma pessoa, mas não consegue mudá-lo totalmente. Depois de alguns meses, se a mudança  for muito radical, a pessoa retomará seu jeito anterior de se vestir. Por isso, ela critica os programas de televisão que fazem uma transformação total do visual das pessoas. “Gostaria de ver aquelas pessoas seis meses depois. Aposto que voltaram aos seus looks de antes”.

Para Denise, o que define o estilo de uma pessoa é sua rotina, além de preferências de cor, textura, caimento e peso do tecido. Ela usa cinco perguntas para identificar o estilo de quem se acha sem estilo.

  • Qual a sua rotina diária?
  • Cor clara ou escura?
  • Roupa justa ou folgada?
  • Tecido encorpado ou molengo?
  • Estampado ou liso?

 

Dicas para se vestir bem após os 50

Vestir-se bem, após os cinquenta anos, depende de três fatores: nosso estilo de vida, os lugares que frequentamos e o conhecimento do nosso corpo, fundamental para disfarçar os pontos ruins e valorizar os bons. Mas há truques que todas podemos adotar para obter melhores resultados na frente do espelho.

Veja algumas dicas de Denise e aqui alguns looks que favorecem a silhueta depois dos 50:

1 – Listrados, florais, cores fortes e estampas de animais devem ser usados com parcimônia. Se você não faz o tipo extravagante deve usá-los como detalhes em acessórios, echarpes, bolsas, bijuterias. Evite misturá-los no mesmo look.

2 – Um truque para alongar a silhueta é usar roupas com abertura e abotoamento na frente. Funciona bem em camisas, vestidos chemisiers e saias. Além de formar uma linha vertical, que alonga, permite deixar partes desabotoadas, criando um visual sexy nas pernas ou decote.

3 – Ombro é sexy e não envelhece. Então, abuse dos decotes canoa e deixe escorregar para revelá-los.

4 – As calças brancas nos favorecem nesta etapa da vida. Se você as evitava quando tinha filhos pequenos – por sujarem com facilidade – chegou hora de aproveitar o  branco. Ele rejuvenesce! Mas, atenção para a modelagem: a que mais favorece a mulher madura é a de pernas retas e cintura alta, que deixam o corpo com visual longilíneo. Algumas confecções brasileiras seguem a modelagem norte-americana NYDJ (Not Your Daugther’s  Jeans, que significa, não é o jeans da sua filha), nesta linha.

5 – Jaquetas jeans dão um “up” em qualquer visual. Podem ser usadas com calças, saias e vestidos, em qualquer idade.

6 – Fuja das blusas e vestidos de alcinhas. A menos que você seja uma malhadora e tenha braços definidos com os da primeira dama americana Michelle Obama, é melhor evitar as alcinhas, ou jogue uma blusa leve por cima.

7 – Evite tecidos de poliéster para não esquentar. Prefira o “voil” de algodão, a viscose, a cambraia de linho ou  georgette de seda que são elegantes e confortáveis.

8 – O decote que mais nos favorece é o V, porque alonga o pescoço. Se você gosta de decotes retos ou redondos, use um colar comprido com um pingente, ou uma echarpe longa enrolada no pescoço e com as pontas caídas. Eles formarão um V sobre o colo com o mesmo efeito de alongamento.

9 – Blusas de malha, só folgadas. A malha gruda no corpo e evidencia as gordurinhas que acumulamos com o passar dos anos, independentemente de sermos magras ou não. É recomendável usar dois números acima de seu manequim.  Ainda assim, a blusa de malha parecerá justa, mas estará bem mais elegante. “Se o modelo ficar bem no corpo, arranque a etiqueta GG. Eu peso 75 quilos, e este é o tamanho das blusas de malha que compro agora”, diz Denise.

10 – Viva o vestido cachecoeur! Aquele modelo aberto, com faixa para enrolar no corpo e fechar com um laço. Ele é o coringa para deixar a mulher feminina pois deixa o colo bonito e exposto, e permite uma leve abertura ao caminhar. O problema é que um bom modelo costuma ser caro, porque consome muito tecido.

11 – Comprimento ideal: não precisa esconder os joelhos. Mantenha-se fiel ao seu estilo. Mas, chegou a hora de aposentar a microssaia, e baixar um pouco a bainha. Mesmo as viciadas em academia devem evitar a mini, porque ninguém escapa das gordurinhas na parte interna das coxas ou dos joelhos. As saias longas são uma excelente opção: elegantes, escondem os pequenos defeitos, como a celulite, varizes e as gordurinhas.

12 – Usar um casaquinho por cima do vestido ou da calça comprida favorece e alonga o perfil. Se já passou da fase dos calores, use a sobreposição de peças, que cria um visual moderno e mais jovem. Podem ser camadas de diferentes cores. As europeias parecem tão charmosas no inverno por causa das várias camadas de roupas.

13 – As leggings devem ser usadas com blusa solta e comprida. A regra é: solto em cima e justo embaixo e vice-versa. Uma saia rodada fica bem com blusa justa.

14 – Já repararam que as mulheres maduras mais elegantes estão sempre com os braços cobertos ou semi-cobertos? A manga que mais nos favorece nesta fase é o modelo mais justo e que cobre o cotovelo. Quem tem saco de ficar hidratando os cotovelos o tempo todo?

15 – Se for usar uma roupa sem mangas, deixe a curva do ombro à mostra. Escolha um modelo mais cavado. Os mais largos nos ombros envelhecem e dão um ar de vovó. As roupas da estilista Donna Karan se destacam por mostrar a curvatura dos ombros.

16 – A roupa justa não faz a pessoa parecer mais magra. O que dá esse efeito é o manequim correto. Se o seu tamanho é 46, este é o tamanho que vai lhe cair bem. Muitas mulheres caem na ilusão de comprar um número menor para parecer mais magra. Em geral, são mulheres com dificuldade para aceitar o envelhecimento. Ninguém mantém o mesmo manequim e, sobretudo, a mesma estrutura de corpo,  com o passar dos anos. O acúmulo de gordurinhas é inevitável, até para as magras.

Elvira Lobato

Elvira Lobato

Mineira, de uma família de 17 irmãos, foi criada na zona rural de Pitangui, na região do Cerrado. Aos 19 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde participou da resistência à ditadura e construiu sua carreira de repórter. Formada pela UFRJ, atuou na imprensa escrita por 39 anos, 27 deles na “Folha de S. Paulo”, onde fez parte do núcleo de repórteres especiais de 1992 a 2011, quando se aposentou do jornalismo diário para se dedicar a projetos pessoais. É autora do livro “Instinto de Repórter”, sobre seus métodos de investigação jornalística. Está no ranking de jornalistas mais premiados do Brasil. Recebeu, entre outros, o Prêmio Esso de Jornalismo, em 2008, pela reportagem sobre o patrimônio dos dirigentes da Igreja Universal do Reino de Deus. Em janeiro de 2016, publicou a reportagem “TVs da Amazônia Legal-Realidade que o Brasil Desconhece”. Aos 62 anos, casada, tem três filhos e dois netos. Alimenta sua alma de repórter com incursões pelo interior para fotografar e coletar histórias da gente brasileira. Faz bordados lindos e um pão de queijo….

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