A escrita, arma poderosa contra o câncer

Começamos hoje uma nova série especial do Mulheres50mais: “Falando de Câncer”. Nossa proposta é abrir espaço para mulheres compartilharem as experiências que tiveram ao se deparar com a doença, que deve atingir até 1,2 milhão de brasileiros em 2016/2017, segundo estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca). Como encarar o diagnóstico? Como enfrentar o tratamento e seu desgaste físico e emocional? O que fazer para se prevenir? Quão emocionante foi celebrar a cura?

Na estreia, trazemos o depoimento da jornalista Luciana Medeiros, 55 anos, que nos conta como a escrita sobre o cotidiano do tratamento ajudou a superar aquele momento, abrindo espaço para a troca de sentimentos.

Luciana Medeiros, jornalista, 55 anos, passou por um transplante de medula para tratar um linfoma e está em remissão há mais de três anos. Foto de Ana Lúcia Araújo

Luciana Medeiros, jornalista, 55 anos, passou por um transplante de medula para tratar um linfoma e está em remissão há mais de três anos. Foto: Ana Lúcia Araújo

O linfoma que eu tive carrega a fama de ser um sujeitinho safado e sem vergonha. É assim: as neoplasias do sistema linfático, os linfomas, em suas dezenas de subtipos, têm dois comportamentos distintos. Os agressivos se espalham rápido, mas são mais fáceis de curar. Os indolentes vão ficando, devagar e sempre, quase como uma doença crônica. Pois esse linfoma do manto que passou pela minha vida consegue ser, ao mesmo tempo, animado para se disseminar e resistente ao extermínio. É dado a recidivas erráticas.

Eu tinha 48 anos quando fiz o primeiro tratamento quimioterápico. Estava numa boa fase, assentada, sem grandes emoções. O câncer não me tirou do prumo. Passei pelos medicamentos atômicos, pela menopausa quimioterápica (haja calor concentrado!), pela careca. Eu tive a sorte de estar numa rede de proteção formada por família, médicos e amigos, e tudo isso misturado: meu irmão médico, amigo da oncologista que assumiu meu caso, que virou amiga, e a mão doce de todos os amigos que me cercaram. Tratei, fui carimbada: em remissão. Ufa.

Pela minha natureza, amplificada pelas circunstâncias da vida, não gosto de depender de ninguém e tenho dificuldades em receber — carinho, atenção, cuidado, elogios, presentes, qualquer coisa. Naquele momento, tive uma consciência aguda dessa dificuldade. Mas ainda não conseguia lidar com isso. A surpreendente leveza dos efeitos colaterais manteve a defesa mais ou menos inteira.

Às vezes, imagino que essa seja uma dificuldade geracional — somos aquelas que toparam o papel de mulheres-maravilha, de fodonas. Afligi-me só com o peso que havia ganho, que aflição besta, belo atalho para lugar nenhum. Aquela cerca bonita, pintadinha de branco, com trepadeiras floridas. Mas quase instransponível.

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Três anos depois, o safado sem vergonha deu notícias. Nódulo, biópsia. A artilharia seria mais pesada — indicação para o transplante de medula óssea. Incontornável. O coração deu um pulinho de medo: três meses de quimio pesada e depois a internação para o TMO (Transplante de Medula Óssea) propriamente dito. O transplante, seja ele autólogo (das células-tronco do próprio paciente) ou heterólogo (células de um doador), se dá num processo que carrega certa barbárie, levando às últimas consequências a toxicidade dos tratamentos de câncer. Em cerca de um mês, retiram-se e armazenam-se células-tronco. A medula é aniquilada pela canhoneira dos medicamentos. As células são reintroduzidas para recolonizar o sangue.

Tudo no isolamento, porque a gente fica sem defesa nenhuma. Qualquer infecçãozinha pode evoluir muito mal. Eu estava meio amortecida, defensivamente dissociada. Disposta, embora tentasse não pensar muito na vida em suspenso.

Mas não em silêncio.

Eu havia criado, na fase de preparação, o blog Diário do Manto, pensando em dar e receber notícias. Em cada post eu descrevia etapas do tratamento, revelava questões e dificuldades, pesquisava a terminologia e os procedimentos, falava de filmes, discos, livros, seriados, apresentava lembranças e histórias. Aos poucos, fui percebendo que aquele exercício ia além da troca de informações. Cada texto se tornava uma pequena etapa a ser percorrida. E vencida (uha!). Aquela atividade era reconfortante, e não apenas por causa do retorno em comentários.

A escrita em si era um exercício de esperança, um olhar para o futuro, uma mobilização.

Escrever era colocar do lado de fora e dar forma visível às aflições, às assombrações. E ali eu consegui receber, verbo intransitivo. Foi memorável entender essa mecânica. Receber também é dar; dar ao outro a chance de cuidar de você.

Cáspite!

Saí do hospital em fevereiro de 2013, fui declarada em remissão pouco depois, e assim permaneço. Não perdi todo o peso que eu queria perder, ó céus. Decidi deixar o cabelo curto e grisalho, natural. Menos trabalho, algum estilo. Penso, hoje, na passagem dos dias e das noites — bem mais do que pensava antes do câncer.

O blog parou no fim do tratamento mas continua no ar, recebendo comentários — alguns emocionantes, como o do rapaz que se desesperou ao receber a noticia de que estava com um linfoma do manto e que só decidira se tratar após ver meu blog. E se encher de esperanças.

Luciana Medeiros, especial para Mulheres50mais

Luciana Medeiros, especial para Mulheres50mais

Luciana Medeiros, 55, carioca, jornalista formada pela PUC, foi repórter, editora, apresentadora em rádios (MEC e JB), trabalhou no jornal O Globo, em revistas e internet — hoje editando site, e muito contentinha. Fez e faz assessoria de imprensa na área cultural. Em outra encarnação profissional foi cantora. Escreveu dois livros em parceria com João Luiz Sampaio (as biografias do violoncelista Antonio Meneses e da pianista Guiomar Novaes) e organizou/editou o livro "Cronistas falam de superação". É idealizadora e coordenadora do site Tutti Clássicos. Tem uma filha espetacular. Tem os melhores amigos do mundo. Tem vontade de escrever ficção, mas não se considera capaz. Não tem mais linfoma, não, senhores. E assim pretende permanecer.

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